espirais

Apoio PedagógicoApoio Pedagógico

Edições Anteriores

Cadastro

Cadastre-se para receber
mensalmente em seu e-mail.


Avôs e Avós estragam os netos?

Avôs e Avós estragam os netos?

A criança, frente a duas orientações diversas, tenderá a adotar aquela que lhe for mais conveniente, simpática e agradável [...] o grande aliado da teimosia das crianças é a insegurança dos pais [...] (Zagury, 2003, p. 166).

 

Os pais, até os que autoestimulam, perguntam se é lícito obrigar os avós a  adotar as mesmas orientações do núcleo familiar que estão com as crianças. Até uns dez anos atrás, eu achava que sim, mas compreendi que é impossível equalizar os hábitos de todos os ambientes do educando. Atualmente, considera-se inoportuno tentar homogeneizar orientações, também porque sua diversidade facilita a adaptação à civilização atual tão diversificada.

Depois da segunda metade do século XX, as gerações não têm tempo hábil para atualizar e adaptar seus métodos educativos. Os mais velhos afirmam terem sido bem-sucedidos com seus filhos, e que não há razão para não aplicarem o mesmo método com os netos, mesmo sem a garantia de sucesso que as novidades preconizam. Então, preferem “usufruir” e dar tudo aos netos, até o que não deram aos seus filhos, os pais atuais. Eles acham que devem ser os “bonzinhos”, que existem para “estragar” os netos, e os pais, para educá-los! Por isso, os netos preferem os avós, criando o choque entre as gerações deles e a de seus pais. Em muitas famílias, os avós são os soberanos educadores das crianças, e os pais (porque trabalham) submetem-se a eles por necessidade ou para retribuir “favores”, mesmo não concordando com o que fazem.

Os filhos precisam ser educados para aprender a viver na diversidade, na adversidade e nas diferenças. Por isso, acho que cada ambiente que frequentam precisam, por obrigação, educá-los com suas leis autênticas, apresentadas com honestidade  e transparência, para que aprendam suas realidades, comportem--se com aderência, para neles serem bem recebidos, incluídos e terem autoestima. Além disso, o aprendizado diversificado enriquece o intelecto e a educação pelo intercâmbio de valores, tendo os pais como sérios triadores, decidindo o que será incorporado ao modelo do lar, enquanto os responsáveis pelos outros ambientes também devem tirar o que lhes convém admitir em seus respectivos “territórios”. Mas, em todos, os pais, quando presentes, devem assumir a orientação definitiva do que deve ou não ser apresentado aos seus filhos, porque é sempre deles a responsabilidade final por sua educação, sem, contudo, interferir nas leis locais. Eles até devem optar por permanecer ou não em determinado ambiente, mas jamais podem impor neles as leis do seu lar, assim como não devem permitir interferências das leis de outras pessoas, de outros locais, em seu ambiente familiar. 

A casa dos avós é um dos ambientes mais importantes frequentados pelas crianças, e apesar de pertencer à família expandida, não faz parte do  núcleo familiar; o que foi comentado sobre “outros ambientes” vale para ela. Os avós, com os pais ausentes, são os dirigentes, que fazem valer suas leis em qualquer lugar; os pais, na casa dos avós, precisam da anuência destes para adaptar as leis vigentes no ambiente deles ao que desejam, para não tirar sua autoridade de “chefes do recinto”. Se os avós mimam em sua casa, os netos aprendem a se comportar “mimadamente” só ali (“departamentalizam” o aprendizado); os pais não devem se preocupar com isso, porque, se em seu núcleo familiar não houver mimos, o comportamento dos filhos tanto no lar como na sociedade seguirá o modo como eles mesmos educam, pois na sua educação final, vingam os valores do lar e os valores de “fora” que foram triados e administrados por eles. Portanto, se os mimos dos avós forem exigidos pelos filhos também no núcleo familiar, deverão ser negados pelos pais, os autênticos educadores, nem que tenham de adotar punições por eventuais agressões.

Conclusão: orientações contraditórias entre pais e avós são a maioria; são dois  modelos que precisam atuar e se completar nos respectivos domínios para a boa evolução da personalidade de todos; a autoestimulação precoce e continuada é o melhor caminho para isso. Um aspecto positivo do convívio assíduo das crianças com os avós, mesmo os que “mimam”, é o de representarem as “delícias da vida” a serem autoconquistadas por se comportarem bem dentro das leis do lar; “merecendo”, por bom comportamento, ganhar o “direito” de usufruir “tudo de bom” que existe na casa dos avós. 

Outro aspecto positivo está relacionado à curiosidade e preocupação de todos os humanos com o futuro. Embora imaturas, as crianças também se preocupam, no nível anímico, sem ter, até os cinco anos de idade, a capacidade de externar suas preocupações. O ser humano consegue fantasiar seu futuro, projetando nele o que poderá ocorrer com base em seu passado, numa equivalência temporal simétrica; a criança “prevê” seu futuro fantasiando, nessa simetria temporal, novas situações com base em seu passado; isso quer dizer que ter vivido um determinado período pode “garantir”  viver outro semelhante a partir do presente. Os pais, como educadores autoestimulativos e confiáveis, permitem à criança somar à projeção do futuro que fez de si mesma a da vida por eles vivida, com a mesma duração e qualidade; incorporam a certeza de que seu futuro, decerto, vai se estender, pelo menos, à idade dos seus pais, dando-lhe autoconfiança e segurança para criar projetos “longínquos”, porque haverá tempo suficiente para desenvolvê-los, cumprir e conquistar por si mesma sua autoestima.

Por extensão, a presença assídua de avós e bisavós confere maior segurança ainda à criança, porque ela projeta a longevidade deles em seu próprio futuro, com a “certeza” de que vale a pena investir em projetos mais “ousados e muito demorados”, e se esforçar ao máximo para chegar à máxima felicidade autêntica. Isso também acontece com o convívio da criança com outras pessoas mais velhas, mesmo não familiares.

“Entre deixar nossos filhos com babás [...] e os avós, digo sempre: felizes daqueles que contam com essa ajuda inestimável” (Zagury, 2003, p.169).

Concordo. Embora nem todas as babás sejam bem preparadas, e nem todos os avós também o sejam, e cada caso deva ser analisado individualmente (ambos mimam mais do que autoestimulam – nenhum é o responsável definitivo pela educação final dos filhos), em caso de necessidade, sugiro aos pais “consertarem o que vier errado como consequência do que uns e outros fazem”. Mimar crianças só não está arraigado numa minoria de cuidadores substitutos. Pouco se consegue ao sugerir que mudem seus procedimentos superprotetores. Avós são infinitamente melhores, mas precisam, pelo menos, ser esclarecidos sobre a educação atualizada e suas vantagens para prevenir problemas para todos; são frequentes as agressões de netos contra os avós decorrentes da pouca autoestima autoconquistada devido aos mimos recebidos.

A tarefa educativa dentro das leis dos pais não carece de “compensação”, e a casa dos avós não deve compensá-la nem ser um “refúgio”, mas um prêmio por bom comportamento no núcleo familiar. Com a autoestimulação precoce e continuada, o processo educacional é prazeroso para todos, e não precisa ser compensado; os filhos encaram a casa dos avós como um modelo ambiental a mais, agradável e prazeroso.

KLAJNER, HENRIQUE. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

Todos os direitos reservados | Desenvolvido pela

Tante