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Filhos que batem nos pais

Filhos que batem nos pais

Toda criança pequena tem muita dificuldade em dominar suas emoções. Além disso, nessa faixa etária, os sentimentos são muito fortes. Ela ainda não tem maturidade emocional, de modo que, contrariada, explode [...] é normal esse descontrole ( Zagury, 2003, p. 203).

 

Bater é uma forma de agressão, mas talvez não a pior. Muitos autores afirmam ser normal “crianças pequenas” baterem, mas não definem até quando elas são “pequenas”. E, não raro, vemos crianças e adolescentes agredindo, batendo e matando pessoas (até mesmo os próprios pais, avós e parentes) e animais. Até que idade este comportamento pode ser considerado normal? Em minha opinião, bater é agressão, um distúrbio comportamental que nunca, em nenhuma idade, em hipótese alguma, pode ser aceito como normal, ou sequer tolerado.

É preciso conhecer o significado das palavras. Emoções são sentimentos que alguém experimenta quando submetido a situações de estresse; estresse é o que as pessoas sofrem nas mudanças de condições, quando a demanda para sua adaptação e para conseguir meios para enfrentá-las é excessiva. Estresse e emoções não bem administrados levam a alterações de humor. Humor é a forma pela qual alguém reage ao perceber o que ocorre no mundo, que reflete seu estado de sentimentos e emoções despertados pelos estresses.

O humor tem quatro formas de se expressar: 1) com indiferença, alienação, “não se importa com o que acontece”; 2) com equilíbrio – é o normal -, com disposição e adaptação ao momento; 3) com desconforto, que demonstra intolerância, aspecto deprimido, irritabilidade; 4) com impulsividade, com ou sem agressividade. O humor em geral varia conforme o momento, mas variações exageradas, sobretudo as do terceiro e quarto tipos, levam a distúrbios comportamentais. A agressão física é um deles, e, somada ao uso e abuso de drogas lícitas e ilícitas, violências variadas, gravidez não planejada e doenças sexualmente transmitidas, é a forma de expressão mais grave. Bater é considerado um distúrbio comportamental grave, que provém da alteração de humor causada por emoções desagradáveis oriundas de estresses mal administrados.

Mas agressões também podem ser usadas para a defesa ou sobrevivência diante de ameaças. Os humanos como os outros animais, são desde a fecundação, submetidos para sempre a estresses seguidos e reagem obrigatoriamente às agressões com uma de duas formas: ou enfrentam e lutam, quando se sentem capazes, ou fogem para se salvar. Nas suas primeiras experiências, o animal procura “retribuir” a agressão sofrida e, com o resultado das suas reações, aprende a decidir se é melhor fugir ou continuar enfrentando. Com o ser humano acontece o mesmo. A criança, ou bebê, só agride reagindo a uma agressão ou imitando algo que presenciou e que parece agressão. O bebê nunca inventa uma agressão; a criança não cria tal ato com a intenção de agredir, mas desperta essa intenção depois de receber ou presenciar um ato que a agride e a faz sofrer, mesmo sem ter havido tal intenção. Por exemplo: uma carícia, beijo ou agrado que um bebê receba por três vezes serão retribuídos por ele a quem o ofertou com força e intensidade tais que podem resultar num tapa ou mordida involuntários; mas são, realmente, agressões, embora resultantes de um “mal-entendido” frequente com crianças, que precisa ser corrigido de imediato por meio de mensagens adequadas à idade, que ensinem a diferença entre carinho e agressão.

Apesar de em alguns casos precisar ser tolerada, qualquer agressão, seja ou não intencional, precisa ser logo reprimida por mensagens inteligíveis e punições adequadas a cada idade. Se a agressão não for intencional ou apenas responsiva, a criança adere à primeira repreensão e para de agredir; quando se mantém agressiva, é sinal de que o ambiente nada faz para que sinta, por meio da punição, a dimensão e as possíveis consequências funestas dos atos agressivos. Pais de crianças compulsivas e com hábitos agressivos ou “ensinaram” ou permitiram que elas continuassem aperfeiçoando a agressividade, sem educá-las para chegar aos resultados desejados.

A educação não agressiva da autoestimulação precoce e continuada encontra apoio na maneira como a natureza ensina a viver e sobreviver; com suas “leis naturais”, ela “agride”, exigindo dos seres vivos que “aprendam” a viver sem agredir. Por exemplo, o recém-nascido normal dorme vinte e quatro horas por dia nos primeiros dois meses, e só interrompe o sono para satisfazer necessidades como a fome. Desperta com um berro intenso, resposta muito agressiva à dor que a fome provoca, pela intensa contração do seu estômago (confirmada por sua fisionomia de sofrimento, que denota alteração de humor pós-estresse); outros estresses, como sede, desconforto físico, distensão gasosa, doença e até a manha, (comportamento para obter o que erradamente lhe ensinam por mimos) doem muito (todos provocados por agressões da natureza).  Todavia, suas respostas nunca ultrapassam os limites, ritmo e disciplina da agressão da natureza, a qual educa para aprender que o sofrimento infligido por ela é para o seu próprio bem e “salvação”, porque o induz a esforços próprios, autoconquista e autoestima, e para aprender que, aderindo às leis da natureza, chega invariavelmente à boa saúde, à felicidade plena e autêntica, a só agredir em resposta proporcional a agressões, sem ultrapassar os parâmetros preestabelecidos. 

O recém-nascido autoestimulado continua, pela vida afora, enfrentando estresses cada vez maiores com alguma forma de agressão, mas é educado a administrá-los para não incorrer em alterações de humor; a superar obstáculos e limites cada vez mais complexos, a evoluir, existir, pertencer, enfim, a cumprir os objetivos humanos sem agredir. Como o feto já recebeu “leis educativas” transmitidas por “agressões” da natureza ao limitá-lo, discipliná-lo, submetê-lo ao ritmo da vida, a criança não estranha nem sofre ao receber as leis educativas depois do nascimento, agora dos pais, que continuarão o maravilhoso “trabalho educativo que a natureza começou”.

Os pais não conseguem compreender por que filhos batem, mesmo sendo agradados. A causa está nos mimos e superofertas, que os tornam incompetentes e dependentes; seu ato de bater não é punido como uma agressão, mas contido com palavras ou atitudes de agrado que, para eles, mais significam aceitação do que recusa ou repulsa. Com isso, a agressividade  aumenta (assim se comportam porque “entendem” que é isso  que os pais apreciam), e a contradição dos pais está no fato de não receber bem essas atitudes, sem perceber que foi dessa “maneira” que ensinaram. Essa contradição confunde ainda mais as crianças.

Nossas crianças autoestimuladas não são agressivas, porque, desde o nascimento, recebem orientações educativas que imitam a natureza, em continuidade ao seu processo educativo da vida intrauterina. Quando “despertam para vida” aos dois meses, quando em vigília e sem nenhuma atividade específica importante, ficam no chão duro, “desconfortável”, sozinhas durante a maior parte do tempo, sem nenhum elemento que as distraia e impeça de sonhar e fantasiar necessidades e desejos indutores das autoconquistas, obedecendo ao instinto inato de autoconquistar e evoluir de maneira contínua. Elas procuram “sair da solidão e do desconforto” com iniciativa e esforços próprios, e, em busca de novas posições e objetos, descobrem o movimento do corpo, o que já é uma superação de limites com autoestima e felicidade autêntica. Então, passam a pegar objetos cada vez mais difíceis e distantes, contabilizando os “lucros” das autoconquistas só para elas; assim, valorizam vitórias, esforços, empenho e, mais importante, aprendem a valorizar limites e obstáculos progressivamente mais difíceis como estímulo imprescindíveis para sucessivas autoconquistas e, em todas as situações, pelo resto da vida, autoconquistarão tudo, sem aceitar nenhuma ajuda, para não “dividir” seus méritos obtidos. E, o mais importante de tudo, sem nunca agredir.   

 

KLAJNER, HENRIQUE. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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