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Respeito é muito bom

Respeito é muito bom

Tratar os outros da maneira como gostaríamos de ser tratados é fundamental. Mas existe uma receita para ensinar os pequenos a respeitar? Como falar desse assunto com as crianças? Respeitar para ser respeitado. Esse é o lema que todos devemos aprender. O que é respeito? É dar atenção, honra e consideração. E ele deve começar entre os pais, para que seja um exemplo a ser seguido pelos filhos. (Super Nanny) Todo mundo gosta de ser bem tratado. Da vovó ao neto, da professora ao aluno, do pai ao filho, o respeito no cotidiano é garantia de convivências mais tranquilas, felizes e equilibradas. As crianças também apreciam o respeito, mas só conseguem praticá-lo quando também são respeitadas. É muito importante dizer ao pequeno que ele deve respeitar todas as pessoas. Mas só dizer não funciona – ainda mais quando os pais não seguem aquilo que pregam. Ou seja, não adianta empregar a filosofia do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Nada melhor do que agir corretamente com eles e dar o bom exemplo. Afinal, os pequenos aprendem melhor observando as ações e o comportamento dos adultos. “As atitudes dos pais em situações do cotidiano, como no trânsito e no convívio diário com vizinhos, amigos e familiares, são observadas e assimiladas pelos filhos, que as tomam como modelos que passam a guiar seu comportamento atual e futuro. Os pais são tidos pelos filhos, especialmente pelos pequenos, como pessoas ideais, e a tendência a imitá-los é muito esperada”, explica a psicóloga Eliana Marcello De Felice, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Se a relação entre os pais parece uma guerra, será difícil convencer o filho a se comportar como um lorde. Então, você terá de reconhecer que o mau exemplo partiu de casa, o que exigirá mais trabalho para fazer a criança acreditar que o respeito é um bom caminho. A psicóloga Maria Grupi, do Ponto Ômega Centro de Cuidados Infantis, acredita que os pais vêm errando muito na hora de passar o exemplo para os pequenos. “O modelo atual é falho. Os adultos não demonstram a mesma preocupação com o ato de comportar-se. Antigamente, além de ser mais consistentes, eles se mostravam mais formais nas relações com as pessoas”, analisa a especialista. O desrespeito aparece, também, quando a criança desenvolve uma noção de que é única no mundo e de que as outras pessoas não são tão especiais quanto ela. O pequeno deve, então, aprender que não está sozinho e que os outros também possuem seus interesses e suas próprias necessidades, inclusive a de ser bem tratados. Assim, toda vez que desrespeitar alguém, ele deve ser repreendido para que perceba o quanto foi desagradável. O contrário também precisa ser feito: quando tratar alguém respeitosamente, deve receber elogios, para que perceba como esse comportamento é apreciado pelas pessoas. E quem é que não gosta de ser valorizado por suas ações gentis? Nos primeiros anos, é comum a criança se achar o centro do universo. Na busca pelo princípio do prazer, ela valoriza as boas sensações e se esforça para alcançá-las. Segundo a psicóloga clínica Viviane Namur Campagna, o pequeno dá um passo muito importante quando se torna capaz de ter interesse pelos outros, e começa a respeitar seus limites. “Contudo, isso é um aprendizado longo e penoso, no qual os pais têm papel fundamental. É preciso mostrar aos filhos que viver é aceitar a espera, tolerar as frustrações, reprimir os impulsos e respeitar o espaço do outro”, diz a especialista.   Como ensinar o respeito? Como já foi dito, pais que se respeitam têm grandes possibilidades de ver seus filhos “imitando” seu bom comportamento com outras pessoas. Por isso, pense bem antes de criar qualquer discussão na frente das crianças. “Os filhos querem ser parecidos com os pais, para ser admirados e amados por eles. Portanto, é necessário que os pais ajam sempre como o tipo de pessoa de que gostariam que a criança fosse”, diz a psicóloga Viviane Namur Campagna. Entretanto, o respeito não deve ser ensinado e mostrado apenas no lar. Fora dele, é importantíssimo que os pais continuem dando o bom exemplo. Como pedir ao seu filho para não furar a fila, por exemplo? E como exigir que ele não fale palavrões se essa prática é comum para você? “Se a família valoriza o tratamento de polidez com os amigos, os conhecidos e os subalternos, a criança vivenciará inúmeras situações nas quais os adultos terão a oportunidade de mostrar o que é correto e incorreto”, diz a psicóloga Maria Grupi. Se, por outro lado, os pais não dão muita importância às manifestações de cidadania, as crianças certamente também agirão assim. Além disso, outro ponto importante é que, para a garotada aprender a respeitar, ela deve ser tratada como gente. Muitos pais desconsideram a presença e a opinião dos pequenos em situações cotidianas, relegando-os a uma posição inferior. Isto é algo que diminui a autoestima da criança e a desestimula a praticar o respeito com os outros, como explica a psicóloga Eliana Marcello De Felice. “O passo inicial – e fundamental – para que uma criança possa aprender sobre respeito, consiste em que ela seja respeitada e se sinta tratada como alguém digna de respeito. Ou seja, ela precisa ‘viver na pele’ o respeito humano”, conclui a especialista. Muita gente confunde respeito com permissividade. O conceito está totalmente errado. Respeitar o pequeno não é deixá-lo fazer tudo o que quer. Se isso acontecer, quando ele não puder contar com os pais ao seu lado como educadores e orientadores, sentir-se-á abandonado e descuidado. Respeitar uma criança requer ações efetivas: ela deve ser ouvida, cuidada e atendida em suas necessidades. “Pais que espancam o filho, insultam-no e aplicam castigos desmedidos sem que ele perceba os motivos o expõe a situações de constrangimento e humilhações, e dificilmente conseguirão fazê-lo entender o que significa respeito: relacionar-se com dignidade”, aconselha Eliana Marcello De Felice. Outro ponto lembrado pela psicóloga é a exigência de respeito em situações nas quais a criança não poderia, por sua idade e seu estágio de desenvolvimento, comportar-se da maneira como os pais gostariam. Não adianta, por exemplo, exigir que o filho seja um anjinho no meio de uma palestra maçante de cinco horas de duração, na qual até mesmo os adultos se sentiriam inclinados a bocejar e a desenhar no caderno para passar o tempo. É preciso levar em conta a capacidade do pequeno para o cumprimento de regras. Segundo Eliana, isso não frustrará suas expectativas e não provocará na criança uma sensação de culpa por não corresponder àquilo que os pais esperavam dela. Não deu para evitar E, quando o ato de desrespeito acontece, como os pais devem proceder? Situações do cotidiano podem ser um bom momento para discutir o conceito. “Com uma criança pequena, é preciso ser muito direto e concreto, mostrando-lhe as consequências diretas da falta de respeito”, diz Viviane Namur Campagna. Como? Se ela tira, à força, um brinquedo da mão de um amiguinho, e esse fica chateado ou chora, questione-a: “Você gostaria que fizessem o mesmo com você?”. Diante da resposta negativa, a criança será levada a refletir sobre o seu comportamento inadequado. Outra situação: se o seu filho jogar lixo no chão, mostre-lhe como a rua fica suja e feia. Já com crianças maiores, acima de 10 anos, e adolescentes, o conceito pode ser discutido de forma mais ampla, incluindo a vivência em sociedade, suas regras e seus significados. Em alguns casos, o pequeno deverá ser repreendido pelo comportamento inadequado, mas nunca fisicamente, segundo a psicóloga Eliana Marcello De Felice, as consequências desse tipo de pena costumam ser desagradáveis e indesejáveis. “Em primeiro lugar, os pais costumam adotar essas formas de punições como reações impulsivas e impensadas diante do comportamento dos filhos, o que tende a gerar nos adultos, posteriormente, fortes sentimentos de culpa e a necessidade de compensar o filho pelo ato violento”, avisa a psicóloga. “Em segundo lugar, punições violentas acarretam medo na criança e a tendência a repetir comportamentos agressivos em suas relações interpessoais, em vez de uma verdadeira reflexão sobre o ocorrido”. Ontem e hoje “No meu tempo, era tão diferente…”. Toda criança que já aprontou ouviu essa frase dos pais. Você está certo. À medida que o tempo passa, a educação se flexibiliza. Décadas atrás, ela era mais rígida, e os pais adotavam atitudes mais autoritárias e ditatoriais, que exigiam dos pequenos total submissão perante as ordens parentais. Mas a maioria dos psicólogos não vê ponto positivo nessa educação da “época da palmatória”. Ela era muito mais baseada no medo do que no respeito. “E temer não é respeitar”, considera a psicóloga Viviane Namur Campagna. No entanto, a rigidez é necessária em alguns momentos. Se a criança resiste a agir da maneira que lhe foi ensinada, os pais devem intervir com medidas disciplinares. Mas, segundo a psicóloga Mariana Klafke Tichauer, da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC), é preciso prestar atenção, pois nem sempre o comportamento inadequado significa rebeldia. Ele pode ser um pedido de ajuda, quando a criança quer mostrar que algo está errado em seu desenvolvimento emocional. A partir da constatação de que medo e respeito não são sinônimos, esse modelo de educação passou a ser questionado. Mas, em vez de buscar o equilíbrio, muitos pais partiram para uma atitude oposta, e permitiram total liberdade. O novo modelo educacional, segundo a psicóloga Eliana Marcello De Felice, também é ineficaz, porque gera filhos desorientados, imaturos e sem limites, que apresentam reações típicas de crianças negligenciadas. Então, qual estilo deve prevalecer quando se trata de ensinar respeito? Em primeiro lugar, os pais devem insistir no diálogo, expondo as diferentes opiniões, a fim de discuti-las. “Pesquisas sobre estilos de criação mostram que filhos de pais democráticos – ou seja, aqueles que permitiam o diálogo em casos de conflitos de ideias —, que estabelecem regras mais claras e coerentes, têm maior autoestima, são mais independentes, seguros, e apresentam concepções mais consistentes de moralidade, além de comportamentos mais altruístas nas relações interpessoais”, diz Eliana Marcello De Felice. Por isso, muitos psicólogos acreditam que seja este o modelo mais adequado para a educação de crianças. A psicóloga infantil Mariana Klafke Tichauer, da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC), acredita que as crianças de outras épocas pareciam mais educadas, porque viviam em um ambiente familiar mais consistente, e passavam mais tempo com a família, especialmente com as mães, que, na maioria dos casos, não trabalhavam fora. “Hoje em dia, os pais querem compensar o tempo que não permanecem com seus filhos, e acabam sendo muito permissivos”, diz a psicóloga. Contudo, uma coisa precisa ficar clara: ausência não é desculpa para relaxar na educação. Se o tempo com as crianças for pequeno, que seja de qualidade. Dê amor, carinho e atenção a seu filho, mas também coloque limites e ensine boas maneiras. “O respeito só é assimilado quando a criança tem bons exemplos em casa. Não adianta ensiná-la a não maltratar nem xingar o outro, se você faz isso no trânsito, por exemplo.” Mariana Klafke Tichauer, psicóloga infantil da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC).   Por que respeitar os outros? Para se tornar um adulto independente. Para limitar as ações da criança no futuro. Para entender as frustrações. Para aceitar a necessidade do esforço contínuo a fim de obter o que se quer. Para viver bem em sociedade. Para achar o mundo real menos entediante e mais simples do que parece ser. Para aprender a persistir na solução quando tiver algum problema. Para ter bons relacionamentos quando adulto, no trabalho e no amor. Para ensinar respeito, é preciso acreditar nele Não adianta apenas dizer “trate bem todo mundo”. Trate bem todo mundo: seja um parente, a empregada ou um desconhecido no trânsito. Ajude o próximo. Respeite filas. Respeite leis. Trate a criança da maneira como gostaria de que ela tratasse você. Transmita-lhe os valores de família e amizade. Use as expressões: “Obrigado(a)”, “Com licença”, “Por favor”, etc. Explique a ela que existem diferenças entre as pessoas, e que elas devem ser respeitadas. Ensine, desde a infância, que existem figuras de autoridade (pais, avós, professores), que devem ser ouvidas e respeitadas. Ensine-lhe a valorizar os idosos. Proteja o meio ambiente e os animais (não jogar lixo na rua, não maltratar os pequenos animais, cuidar de plantas, etc.). Não discuta a relação do casal na frente dos filhos. Evite o uso de palavrões e expressões de desrespeito. “Se vocês dão pouco valor às manifestações de cidadania, seus filhos também pouco se incomodarão em respeitar os outros.” Maria Grupi, psicóloga do Ponto Ômega — Centro de Cuidados Infantis.   Para cada idade, um discurso Crianças com menos de 5 anos se cansam muito facilmente dos sermões. Com elas, é melhor falar apenas o necessário e agir, colocando limites claros. Mas, por menores que sejam, elas também deverão refletir toda vez que agirem de maneira inadequada. A partir dos 3 anos de idade, por exemplo, seu filho poderá refletir no cantinho da disciplina. Antes disso, tente aplicar o recurso da “caixa do confisco”, que consiste em retirar da criança seu brinquedo preferido por um dia. Segundo a psicóloga Viviane Namur Campagna, crianças a partir de 8 anos entendem melhor as regras verbais. Com essa idade, então, elas conseguirão se colocar melhor no lugar da pessoa que desrespeitaram. E é somente depois dos 11 anos que começarão a compreender conceitos mais completos, que envolvem a vida em sociedade. Quando a criança desrespeitar alguém Converse com ela, de modo a fazê-la pensar e a se colocar no lugar dos outros. Deixe-a de castigo em um cantinho por um tempo. Para isso, utilize o recurso “cantinho da disciplina”. Retire da criança, por um dia, um brinquedo que ela valorize – recurso da “caixa do confisco”. Mantenha a firmeza de suas posições, pois é sua função discipliná-la. Deixe, temporariamente, de fazer agrados e de ser amigável com ela. Mostre que, naquele momento, você não tem vontade de brincar, porque está decepcionado com o modo como ela agiu. Essa regra deve ser aplicada em crianças acima dos 5 anos de idade. “As regras sofrem certas alterações de acordo com as pessoas envolvidas. É claro que o respeito exigido da criança com relação aos avós, por exemplo, não se iguala inteiramente àquele requerido na relação com o irmão.” Eliana Marcello De Felice, psicóloga.   Consultorias: Eliana Marcello De Felice, psicóloga, doutora em Psicologia Clínica pela USP e autora dos livros: “A Psicodinâmica do Puerpério” e “Vivências da Maternidade e suas Consequências para o Desenvolvimento Psicológico do Filho”. Maria Grupi, psicóloga do Ponto ômega Centro de Cuidados Infantis. Viviane Namur Campagna, psicóloga clínica. Mariana Klafke Tichauer, psicóloga infantil da Equipe de Diagnóstico e Atendimento Clínico (EDAC). Revista Guia Supernanny. ano I, n. 2

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