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Tempo de colocar limites

Tempo de colocar limites

Uma das tarefas mais difíceis, tanto para as mães quanto para os pais, é ganhar autoridade e estabelecer limites. Para desempenhá-la corretamente é preciso não confundir autoridade com autoritarismo, nem confundir os objetivos dos limites. Para a educadora Ellen Galinsky, criadora da teoria dos estágios de desenvolvimento das mães e dos pais (para acompanharem os seis estágios de desenvolvimento da criança e do jovem), antes de dar limites aos filhos é preciso estabelecer claramente quais são os objetivos a alcançar com eles e quais os limites da nossa autoridade.

Segundo ela, todos nós temos consciência de que as crianças precisam receber limites, mas poucos nos livramos de um dilema, porque ao mesmo tempo queremos que a criança tenha liberdade, autonomia, seu próprio espaço e cresça sendo responsável por seus atos. O problema é que não sabemos como equilibrar limites (que são proibições) e liberdade.

Nós entendemos que é preciso criar um ambiente de ordem e respeito, mas que, ao mesmo tempo, devemos dar à criança espaço suficiente para desenvolver sua personalidade. Não é uma tarefa simples, nem fácil, porque regras e limites em excesso podem sufocar a criança e cortar sua iniciativa, mas espaço demais para decidir pode criar uma criança “espaçosa” e sem respeito. O equilíbrio é difícil, principalmente para os pais e as mães de primeira viagem, que ficam sempre em dúvida: estou sendo duro demais ou excessivamente permissivo?

Educar é uma tarefa enorme, variada, complexa, difícil. Mas se tivermos de reduzir a educação a apenas um item, então não resta dúvida: educar é colocar limites corretamente.

A dúvida não é boa conselheira e os pais e as mães devem preparar-se para o tempo de colocar limites. Antes de a criança ter idade bastante para receber, entender e poder cumprir limites, ela já terá sido submetida a algumas regras, já terá ouvido alguns “nãos” e percebido a autoridade dos pais. Quando a autoridade natural das mães e dos pais é aceita (o que é normal em todas as crianças, desde que elas convivam com eles), está preparado o caminho para a colocação e aceitação dos limites.

Ninguém pode esperar que um bebê deixe de chorar simplesmente porque o pai quer. Ou que ele seja capaz de deixar de fazer xixi na cama antes de ter a capacidade de controlar os esfíncteres, só porque a mãe mandou. Quanto melhor for o relacionamento entre eles, desde o nascimento, mais fácil será a tarefa quando chegar o tempo de colocar limites. E quanto mais os pais souberem a respeito das qualidades dos limites e de como colocá-los, menor é a dificuldade que vão enfrentar nesse período fundamental para a educação de qualquer criança.

No livro “A Questão dos Limites”, Andrè Fontaine afirma que “todo adulto é, basicamente, o resultado direto dos limites que recebeu quando criança, de como eles foram colocados, recebidos, entendidos e aceitos”. E escreve mais: “Tudo na educação é importante, mas nada é mais importante que amor, liberdade e limites”.

Qualidades dos limites

Os limites devem ser, em primeiro lugar, justos, e as crianças devem ter a possibilidade de entendê-los, para aceitá-los e cumpri-los.

Se a criança quer fazer alguma coisa e a mãe não quer que ela faça aquilo, nem sempre é o caso de colocar um limite. Em primeiro lugar é preciso verificar os motivos da mãe e ver se são justos. Depois, se aquilo traz prejuízo a alguém, inclusive à criança, do ponto de vista físico, mental, intelectual ou afetivo. Porque, às vezes, a mãe ou o pai não quer por uma questão de gosto, de opinião pessoal, e aí o limite não é justo. Na verdade, isso não é um limite, é uma proibição. Por exemplo: a criança gosta de um determinado ritmo contemporâneo que os pais não suportam, muitas vezes por preconceito. Impedir a criança de ouvir aquela música é uma violência contra ela, um desrespeito à sua pessoa e aos seus direitos de indivíduo.

O limite, para valer, tem de ser permanente (ou, pelo menos, ter longa duração. Evidentemente, há coisas que uma criança pequena não pode fazer e que, mais tarde, já vai poder). E deve ser estabelecido “a favor” e não “contra” a criança, embora ela sempre vá acreditar que é contra. O limite é para proteger a criança do ponto de vista físico, mental, intelectual e afetivo, para dar a ela valores. Para ser bem aceito e não fazer confusão na cabeça da criança, o limite precisa valer tanto para o pai quanto para a mãe.

Então, antes de estabelecer limites que querem ver cumpridos, é bom que marido e mulher se ponham de acordo, lembrando sempre de seguir o roteiro de qualidades dos limites:

• ser justo;

• ser necessário e indispensável;

• ser consistente (isto é, valer sempre);

• ser coerente (quer dizer, valer tanto para a mãe quanto para o pai);

• ser claro, fácil para a criança entender;

• estar de acordo com o desenvolvimento da criança;

• ser possível de cumprir.

Mesmo que os limites tenham todas essas qualidades e que sejam aceitos pela criança, é certo que ela vai testá-los, vai tentar descumpri-los ou amenizá-los, vai procurar dias e horas que justifiquem uma exceção. O objetivo da resistência não é contestar os pais ou a autoridade deles, nem mesmo contestar os limites: é assegurar-se de que eles são mesmo para valer e que são importantes, para que possa acreditar neles e assumi-los. Por isso mesmo é que a coerência e a consistência são fundamentais: sem elas, a criança fica confusa a respeito da validade do limite, da sua importância, não consegue aceitá-lo nem cumprir o que os pais desejam.

“Você não manda ni mim”, “eu sei o que eu fazo”, “todo mundo pode e só eu que não posso” ou outras frases do tipo são uma reação até desejável, porque indicam que a criança não é nem está agindo passivamente. Para internalizar um limite e fazer com que ele funcione, a criança não deve ter medo dos pais nem agir apenas automaticamente, mas deve estar consciente do limite e do motivo para agir ou deixar de agir.

Crianças, mesmo pequenas, têm sensores delicados e capazes de captar corretamente qualquer indecisão ou imprecisão, de perceber quando o pai ou a mãe não está suficientemente firme a respeito de um limite ou da sua intensidade. Nessa situação, é natural que a criança reaja, se recuse a admitir aquele limite e a cumpri-lo. A criança não deve ser submetida a esse tipo de dúvida ou insegurança. Os pais devem estar sempre seguros da validade do limite, da sua intensidade e da necessidade e importância do seu cumprimento, para que a criança também não duvide. Caso contrário, ela pode apresentar resistência excessiva e estendê-la a outros limites, tornando-se mais difícil de controlar.

É preciso também que os pais saibam como comunicar os limites, como determinar o que a criança não pode e não deve fazer ou o que ela tem de fazer em determinada situação. Sempre é bom informá-la sobre a razão daquele limite, porque isso faz com que ele seja entendido e mais bem aceito. “Porque sim” é uma forma simplista e uma tentativa simplória de estabelecer um limite, além de ser agressiva para a criança. Para algumas crianças é inaceitável ouvir isso ou frases sem argumentos como “porque eu quero assim”, “porque quem manda aqui sou eu” ou “não tem porquê”.

Até o tom de voz é importante e influi na aceitação ou recusa do limite. Assim como a oportunidade. Procure, por exemplo, antecipar problemas. Não é bom estabelecer limites de improviso, surpreendendo a criança já envolvida em uma situação.

Se a criança já está dentro da loja de brinquedos e só então você dá a ela os limites e as regras do seu comportamento naquela situação, suas possibilidades de êxito são reduzidas. Como diz a sabedoria popular, não se muda a regra do jogo com ele em andamento. Se você sabe que vai levar a criança a uma loja de brinquedos, é preferível reconhecer o direito que ela tem de saber as regras e limites antes de chegar lá, de ter informação sobre o que vai e o que não vai poder fazer ou pedir, o que é que vocês vão fazer lá. E, se possível, os motivos para aquelas regras e limites.

Fazer cumprir e reforçar limites

Outra dificuldade comum para pais e mães é fazer cumprir e reforçar limites. Se a criança está sabendo que não pode mexer em determinados objetos ao seu alcance e mexe assim mesmo, qual é a sua reação? Você adverte a criança para o seu erro e lembra o limite? Você grita com ela? Você dramatiza o seu aborrecimento? Ou você vai castigá-la? Se resolver pelo castigo que acha que ela merece, que tipo de castigo você vai determinar e quando?

Tão importante quanto dar limite é fazer cumprir e estar preparado para atuar apropriadamente quando a criança rompe com ele, porque o seu comportamento nessa situação vai ter influência no comportamento futuro da criança. Adverti-la publicamente, na frente de outras pessoas, gritar, fazer drama ou castigá-la muito depois de o fato ter ocorrido, vai dar resultados negativos, estragar o relacionamento de vocês e dificultar a colocação de limites.

O melhor é ter calma, paciência, ouvir os motivos da criança com respeito e chamar sua atenção civilizadamente. Às vezes, ela esquece o limite sem querer, ou o desejo é tão forte que ela bloqueia sua capacidade de resistir à tentação. Uma simples advertência pode levá-la de volta ao respeito. Se não foi esse o caso e ela insiste, você pode dizer que está triste com o seu comportamento, porque deve bastar. Mas como agir quando a criança perde o controle?

As crianças costumam ficar descontroladas quando outra criança está fazendo o que ela não pode fazer. O raciocínio é simples: se ela pode, meu pai não deixa que eu faça porque não gosta de mim. Se todos podem fazer, por que é que ela não pode?

Responder que ela não é todos é um pobre argumento. Melhor será procurar demonstrar que as outras estão agindo errado e explicar por quê. Pior é quando por falta de argumento, você responde desaforadamente que “não tem coisa alguma a ver com as outras crianças”, porque ela imagina que tem ou que deveria ter.

Lembre-se de que a criança é uma criança e que você é um adulto. Se ela perde o controle, é natural, porque ainda o tem muito frágil. Você é que não deve descontrolar-se.

LOBO, Luiz. Escola dos pais: para que seu filho cresça feliz. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Lacerda Editora, 1997.

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