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Filhos: o grande desafio

Filhos: o grande desafio

Educar os filhos é uma tarefa complexa: cada nova etapa do desenvolvimento da criança é um desafio à capacidade e à flexibilidade dos pais, pelo muito que deles é exigido em termos de mudança de conduta e de atendimento às necessidades e às solicitações do filho. Para os pais, a arte de educar consiste, sobretudo, na possibilidade de crescerem junto à criança, respeitando e acompanhando a trajetória que vai da dependência, quase total do bebezinho, à crescente autonomia e independência do filho já quase adulto.

Para desempenhar tarefas, precisamos de preparo e de treinamento: estudamos anos a fio para exercermos uma profissão, fazemos cursos de culinária, corte e costura, etiqueta. No entanto, na maioria das vezes, a única bagagem de que dispomos para educar os filhos é nossa própria experiência com eles, boas intenções, o firme propósito de fazer o que nossos pais fizeram ou exatamente o oposto. Contamos também com nossa intuição, sensibilidade e com a força do amor que nos liga aos filhos.

Isso pode ser meio caminho andado, mas não é o bastante. Com frequência, acabamos fazendo com nossos filhos coisas de que não gostamos, por exemplo, gritamos ou falamos algo do qual depois nos arrependemos, juramos não agir de novo da maneira que reprovamos. Inúmeras vezes, repetimos frases ou ações que condenávamos em nossos pais, mas que acabam saindo automaticamente. Ficamos confusos e perdidos, sem saber como agir de outra forma.

1. Criar filhos: ontem e hoje

É preciso levar em conta a complexidade da vida atual, em especial, nos grandes centros urbanos. Há algumas décadas, a tarefa de criar filhos, pelo menos aparentemente, era simplificada pela existência de regras e tradições inquestionáveis: “Criança não dá palpites”; “É de pequeno que se torce o pepino”; “Criança tem que obedecer aos mais velhos”; “É preciso respeitar pai e mãe”; “Umas boas palmadas resolvem”. Havia uma espécie de código para a educação.
Depois, as maneiras tradicionais de criar filhos foram profundamente questionadas e, hoje, os pais estão expostos a uma massa de informações — em livros, revistas, artigos de jornais, filmes e entrevistas com especialistas no rádio e na TV. Essas informações são, com frequência, obscuras, confusas e até mesmo contraditórias. “É válido dar palmadas ou colocar de castigo?”; “Quando a criança não quer comer, deve-se insistir ou é melhor não forçar?”; “O que fazer quando a criança insiste em dormir no quarto dos pais?”; “Se eu disser ‘não’ a toda hora, a criança vai ficar traumatizada?”; “Uma criança de 4 anos já pode descer sozinha no elevador?”. Inúmeras perguntas e dúvidas passam pela cabeça dos pais de hoje, que se sentem inseguros, desorientados, indefinidos em seu papel de educadores.

A excessiva preocupação com o que se deve fazer para garantir o bom desenvolvimento emocional da criança pode embotar a espontaneidade, a intuição e o bom-senso paterno. A distorção de teorias psicológicas também é relevante, gerando manejos incorretos, tais como o excesso de permissividade, erroneamente utilizado para “não traumatizar a criança”.

A própria estrutura da família tem passado por alterações radicais, sobretudo no que se refere à distribuição de tarefas para o homem e para a mulher: o homem envolvido com tarefas domésticas (fazer compras no supermercado, levar os filhos para passear, dar banho, trocar fraldas, dar comida); a mulher envolvida em atividades fora do lar, tais como estudar ou trabalhar a fim de contribuir para a renda familiar ou para realizar-se profissionalmente.

Com isso, modifica-se o papel de pai e de mãe diante da criança.

Com pais separados ou recasados, esses papéis sofrem alterações ainda maiores. Por exemplo, quando os filhos moram com a mãe, o pai exerce uma autoridade “de controle remoto” — não é raro que as broncas ou os castigos sejam passados pelo telefone; os estilos de funcionamento da casa do pai e da mãe podem tornar-se bastante diferentes do que eram quando os pais estavam juntos. A mãe e o pai que moram sozinhos com seus filhos podem sentir-se sobrecarregados, tendo que acumular várias funções, sem ter com quem reparti-las no dia a dia. Quando se recasam, as crianças ficam em meio a diversas influências. Por exemplo, o marido da mãe passa a preencher algumas funções paternas no cotidiano (ajudar nos deveres, levar para a escola, dizer o que pode ou o que não pode ser feito), em especial, quando o pai se omite ou vê os filhos apenas de vez em quando. Com relação à ajuda da família extensa, vemos que, atualmente, avós, tios, compadres e outros parentes tendem a estar menos disponíveis para ajudar a cuidar das crianças, pois também trabalham, estão ocupados com outros afazeres ou moram longe. Na impossibilidade de cuidar diretamente dos filhos durante boa parte do dia, os pais recorrem às creches, quando as crianças ainda são muito pequenas, ou então as deixam aos cuidados de empregadas e babás, pessoas, às vezes, pouco qualificadas.

Com a falta de empregadas domésticas e a ausência dos adultos durante o dia inteiro, crianças maiores e adolescentes ficam sozinhos em casa. Quando, desde cedo, conseguem aprender a tomar conta de si mesmos e a contribuir para manter a casa em bom funcionamento, fazem suas tarefas com responsabilidade e eficácia; mas, se só fazem o que precisa ser feito se alguém mandar e cobrar, ou se se sentem sozinhos e abandonados com a falta de um contato mais próximo e afetuoso, surgem as condutas caóticas e desordenadas, que se refletem em casa e, quase sempre, também na escola em termos de indisciplina e de baixo rendimento escolar.

Outro problema comum é o que se passou a chamar de “síndrome da criança executiva”. O difícil acesso a um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e estrangulado pelas dificuldades crônicas de ordem social, política e econômica desperta muita angústia na família, que pode passar a exigir demais dos filhos.

Muitas crianças pobres e as que vivem na miséria são lançadas no trabalho ou na prostituição desde cedo, para contribuir, de algum modo, para a pequena renda familiar; as de classe média e alta ficam com a “agenda” sobrecarregada de aulas, atividades e compromissos. Enfrentam, inclusive, “vestibulares precoces” para conseguirem vagas nos melhores colégios. Com isso, ficam com pouco tempo livre para brincar ou, simplesmente, para ficar “de papo pro ar”.

Acontece que, para a vida adulta equilibrada, saber construir o lazer é tão importante quanto saber trabalhar e desempenhar bem suas funções. Quantos adultos ficam “viciados em trabalho”, criando estados de estresse e de exaustão? Não conseguem “desligar”, relaxar e ter prazer com as pequenas coisas do dia a dia. Propensos a crises de mau humor, irritabilidade e explosividade, correm maior risco de adoecerem. Criar tempo e oportunidade de brincar e de se alegrar é essencial para todas as idades. Além disso, o brincar, para a criança, não é apenas distração — é também aprender a conviver com outras crianças, desenvolver a criatividade, exercitar o movimento, expressar suas emoções, elaborar os acontecimentos importantes de seu cotidiano e os grandes temas da vida.

As condições ambientais têm um impacto poderoso na criação dos filhos: viver em um apartamento pequeno implica uma maior interação com a criança e com o adolescente, e também maiores restrições ao seu comportamento (“Aí não pode mexer”; “O som está alto demais”; “Não pode brincar na sala, vai sujar o tapete”), gerando maior número de conflitos e impasses. É bem diferente quando se dispõe de mais espaço (quintal, praça, praia) onde a criança possa passar pelo menos parte do dia despendendo energia em atividades físicas.

Tudo isso implica grandes modificações na maneira de criar filhos. Para citar alguns exemplos: a criança, hoje, entra na escola muito mais cedo do que há quarenta anos; assistir à televisão durante horas seguidas restringe a oportunidade de distrair-se com outras atividades e brincadeiras; viver em um bairro movimentado, com muito tráfego, impõe inúmeros cuidados e restrições à vida da criança — não pode ir à escola sozinha, não pode andar de bicicleta na rua, não pode correr pela calçada, e assim por diante.

Isso é especialmente verdadeiro nos grandes centros urbanos, onde se constata um aumento assustador da violência, sob a forma de assaltos, assassinatos, sequestros, crianças roubando outras crianças. Na classe média e alta, o medo e a insegurança desse contexto social retarda demais o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de a criança aprender, aos poucos, “a se virar sozinha”, tomando iniciativas de realizar pequenas tarefas fora de casa. A rua e os espaços abertos passam a ser lugares perigosos em vez de estimularem a liberdade e a independência. Nas grandes cidades, as pessoas passaram a viver entre as grades protetoras dos condomínios, dos prédios e até das praças. As crianças das famílias de baixa renda, ao contrário, ficam expostas desde cedo a situações cruéis e traumáticas: passam a viver sob o domínio, ao mesmo tempo protetor e ameaçador, dos “líderes” das favelas, da violência das guerras entre bandidos e policiais ou também expostas ao perigo das ruas.

Além de todas essas pressões, as crianças negras, deficientes ou pertencentes a outros grupos minoritários ainda sofrem as consequências dos preconceitos e da discriminação social, que tanto prejudicam a formação da autoestima.

2. O relacionamento entre pais e filhos

A criancinha, ao nascer, não é uma folha em branco. Em muitos aspectos, é idêntica a todos os outros bebês, mas apresenta características singulares, reações peculiares, maneiras próprias de solicitar atendimento às suas necessidades. Pode ser muito chorona ou só chorar baixinho quando sente fome; pode ser irrequieta e agitada ou absolutamente tranquila a maior parte do tempo; pode dormir quase o dia inteiro ou passar longos períodos acordada. Vai, ao longo dos primeiros anos, percebendo o mundo e as pessoas que a cercam, organizando maneiras, táticas e estratégias peculiares de reagir ao que lhe acontece. O contexto em que vive, as pessoas com quem convive, suas experiências de vida, certas predisposições, recursos e características pessoais: tudo isso contribui para seu modo de ser.

Leonor, de 35 anos, conta que o fato de ser bem mais baixa do que a maioria das pessoas contribuiu muito para sentir-se incapaz e necessitada de fazer mais esforço para conseguir alcançar as coisas. Seus filhos — todos bem mais altos do que ela — não precisam recorrer constantemente a escadas e cadeiras para alcançar o que querem pegar.

Isso não quer dizer que todas as pessoas baixinhas se sintam dessa forma. Cada um de nós desenvolve um modo próprio de “registrar” o que lhe acontece ou a situação em que se encontra ao nascer: se é filho único, mais velho, mais novo, do meio, adotado, bonito ou feio, alto ou baixo, com uma família unida ou desintegrada, em um meio rural ou urbano, e assim por diante.

Há uma multiplicidade de fatores que influem na construção do modo de ser da criança, além do relacionamento com os pais. O filho não é totalmente um produto dos pais, nem quando muita coisa dá errado (gerando, nos pais, um enorme sentimento de culpa), nem quando quase tudo dá certo (gerando, nos pais, um sentimento exagerado de orgulho).

A criança e o adolescente vivem no mundo e, portanto, passam por inúmeras experiências que contribuem para a formação de sua personalidade.

E mais: os filhos também influenciam os pais desde quando são bebês. O recém-nascido agitado, irritadiço, que dorme pouco e chora muito, desperta mais ansiedade, impaciência e irritação do que o bebê tranquilo, que mama, dorme e chora baixinho; por sua vez, ao ser atendido por pais exaustos e enraivecidos porque não conseguem ter sossego nem dormir direito, o recém-nascido agitado ficará ainda mais irritado, frustrado e chorão. Isso pode tornar-se uma característica marcante do relacionamento familiar — “Desde pequenino, esse menino foi difícil; por mais que a gente faça, ele nunca fica feliz”.

Ao considerarmos todos esses fatores, vemos que educar filhos é um processo profundamente criativo, que modifica os pais em vários sentidos. Daí ser impossível concretizar o mito de “criei todos os filhos da mesma maneira” porque, na realidade, “todos eles saíram tão diferentes uns dos outros”. Por quê?

Em primeiro lugar, quando temos o segundo filho, já estamos modificados pela experiência do primeiro, que, com certeza, nos fez reformular muitas coisas. Em segundo lugar, formamos com cada filho um relacionamento único, até porque a criança, desde cedo, forma modos peculiares de reagir às situações. Por exemplo: a mãe repreende os filhos que estão fazendo algo inaceitável. Um sente-se magoado e ressentido; outro a enfrenta desafiadoramente; o terceiro tenta resolver com diplomacia o impasse. Por isso, em um certo sentido, os irmãos não têm o mesmo pai nem a mesma mãe. Paulo Augusto, de 9 anos, costuma reclamar: “Você nunca deixa a Fátima de castigo, só eu”.

Reconhecer a existência de outros fatores relevantes na vida dos filhos não significa desvalorizar nem diminuir a importância da contribuição dos pais. Estes podem atuar como agentes terapêuticos da maior importância, ajudando
a criança e o adolescente a se desenvolverem saudavelmente, conseguindo utilizar recursos e potencialidades de modo pleno, como pessoas confiantes, responsáveis, gostando de si mesmas e dos outros.

Por outro lado, com o que aprendem “na escola da vida”, os filhos podem ampliar o horizonte dos pais, questionando-os em suas “certezas”, ajudando- os a ver novos ângulos de antigas questões. Tatiana, de 16 anos, relata o seguinte diálogo com sua mãe: “Ela tinha a mania de me dizer que homem não presta e, por causa disso, não me deixava arranjar namorado. Tudo isso porque meu pai deixou a gente para morar com outra mulher. Mas isso não quer dizer que todos os homens vão fazer o mesmo, ora! O meu irmão, que ela adora, pode namorar à vontade, né? Um dia, eu disse: ‘Ah, é? Você acha mesmo que homem não presta? Pois deve ser isso que a mãe da namorada do meu irmão pensa do seu filho! Você fica chateada com isso, não fica? Então, a mãe do menino que eu gosto também não vai ficar satisfeita de saber que você acha que ele não presta só porque quer namorar comigo!’’’.

O relacionamento entre pais e filhos é bastante complexo e passa por muitas mudanças ao longo do tempo. A rede familiar, que, por sua vez, está inserida em um contexto social e histórico, sofre influências várias; a conduta de um influi na do outro, em um complexo sistema de trocas. Muitas dificuldades que os pais tiveram quando pequenos são “reeditadas” no contato com os filhos — “Esse moleque é igualzinho a mim quando menino; e eu me pego batendo nele com a mesma raiva com que meu pai me batia, só que não é de cinto!”. Tensões e dificuldades da vida atual — no trabalho, no casamento, no ambiente familiar — transparecem na relação com os filhos, podendo intensificar problemas ou ampliar a noção de solidariedade da família. Diz Andreia, 35 anos: “Eu me surpreendi muito com a minha filha de 7 anos: durante todo o tempo em que eu fiquei de cama, ela foi muito atenciosa, sempre me perguntando se eu precisava de alguma coisa”.

Crenças, valores, maneiras de encarar e de viver a vida, noções do que é ser bons pais e bons filhos, tudo isso entra na composição do relacionamento. As crianças e os adolescentes tomam muitas iniciativas no sentido de modificar os padrões de relacionamento. Assim como os pais, os filhos também podem “fazer acontecer”. Diz Edinho, de 10 anos: “Meus pais se separaram quando eu tinha 2 anos e o papai quase nunca me visitava. Eu ficava muito triste com isso, e minha mãe sentia muita raiva dele; até que eu resolvi fazer que nem um amigo meu fez e que deu certo. Comecei a telefonar para ele toda semana para contar as novidades e perguntar como ele estava. Agora, a gente já sai para ir ao cinema e tomar sorvete!”.

Cada um de nós — crianças, adolescentes ou adultos — tem o poder de provocar mudanças favoráveis ou de intensificar problemas. Em vez de empacar em uma postura de “não adianta, não tem jeito”, que tal começar a agir, tentando estratégias diferentes? É bom saber que a maneira como nos comunicamos uns com os outros, e as mensagens que recebemos e enviamos a cada momento em que interagimos, constituem elementos poderosos no funcionamento das relações.

MALDONADO, Maria Tereza. Comunicação entre pais e filhos. 27. Ed. São Paulo: Saraiva.

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