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Os cuidados parentais são imprescindíveis à saúde mental da criança

Os cuidados parentais são imprescindíveis à saúde mental da criança

Judite Alves

A ideia de que a relação de cuidado entre um adulto afetivamente envolvido e uma criança é primordial para o desenvolvimento sadio não representa nenhuma novidade. Sabe-se que essa relação é importante não só após o nascimento, mas até mesmo na vida intrauterina. Antes do nascimento, cria-se um vínculo afetivo entre a criança e os pais. Passa a existir, então, uma relação que envolve afetos, emoções e sentimentos.

Estes nem sempre são sentimentos de uma só espécie, podendo, às vezes, ser ambíguos. Um exemplo é a mãe que se sente numa relação de amor e afeição com a criança que carrega em seu ventre; no entanto, em alguns momentos, sente saudades de quando não o carregava, por sentir que este lhe suga a energia e toma toda a atenção para si.

Winnicott (1975, Saraiva, 1999), um dos grandes autores e autoridade no estudo das relações parentais, assinala algo relevante sobre a natureza da relação inicial dos pais com a criança. Ele argumenta que a relação dos pais com o bebê é anterior ao nascimento deste. Durante a gestação, por exemplo, há o bebê criado psiquicamente, que corresponde ao desejo dos pais, aquele que eles criam em sua imaginação. Ou seja, os pais já começam a fazer mimos com objetos que pertencerão ao bebê quando nascer, outros conversam com ele e fazem planos incluindo o herdeiro ou a herdeira muito antes do nascimento.

Para Winnicott, cada criança, ao nascer, traz uma tendência inata para amadurecer, ou seja, traz um potencial inato para se integrar, mas, para que haja essa integração, é crucial que lhe seja oferecido um ambiente facilitador que propicie os cuidados de que ela precisa (amamentar na hora certa, tentar descobrir se o choro é de fome ou de dor, etc.). Inicialmente, esse ambiente é representado pela mãe suficientemente boa ou alguém que exerça a função materna, tendo o apoio do pai ou de alguém que o substitua. É a fase da onipotência. O bebê não percebe, mas o seio da mãe faz parte dele (período que vai dos 4 aos 6 meses de vida).

A próxima tarefa da mãe será precisamente frustrar essa criança, não atendendo a todas as suas necessidades prontamente. É um momento de desilusão, e, a partir de então, a criança passa a conviver com os confrontos que facilitarão o desenvolvimento do ego. Concomitantemente, a criança começa a aprender a esperar que suas necessidades sejam supridas, e, com a desilusão, entram os objetos transicionais, que podem ser um travesseiro, objetos macios, que servem de amparo à quebra mãe-bebê.

Ou seja, o bebê lida com a separação (o afastamento temporário da mãe, quando chora e não é atendido imediatamente). Esses objetos transicionais são tão importantes que os pais admitem que as crianças os levem até quando viajam (quando descobrem o seu valor). Às vezes é uma fralda, um cobertor, um ursinho, muitas vezes velhos e malcheirosos, mas a criança não os troca por nada, e, quando lhes é tirado, causa muitas vezes uma noite maldormida para a família. Segundo Winnicott, “os padrões estabelecidos na tenra infância podem persistir na infância propriamente dita, de modo que o objeto macio original continua a ser absolutamente necessário na hora de dormir, em momentos de solidão ou quando um humor depressivo ameaça manifestar-se”. Segundo o autor, tanto meninas como meninos usam o objeto transicional, sem diferenciação para ambos.

Na adolescência, a figura do pai como autoridade é crucial no ambiente familiar. Portanto, se a criança não passou pela fase da frustração, não aprendeu a ouvir um não, nunca foi desiludida, provavelmente terá problemas com toda figura de autoridade, pois é uma maneira de reivindicar do ambiente o que lhe foi negado anteriormente.

Figueiredo (2009) pontua que o agente de cuidados pode ser: os pais, o médico, a enfermeira, o professor, o amigo, entre outros. Estes exercem sua função como presença implicada, ou seja, com comprometimento e atuação. Nesse sentido, diz o autor, não é para o agente cuidar de fazer as coisas pelo outro, e sim ser uma presença em reserva — seguir de perto, desempenhando a função de acolher, hospedar, agasalhar e sustentar aquilo que, no começo da vida, não foi reconhecido como o outro, algo diferente de mim. Em toda a nossa existência, só viveremos bem, como cita o autor, se pudermos contar com algo ou alguém que seja capaz de exercer essas tarefas (sustentar a barra, acolher as nossas dores, hospedar-nos, etc., ou seja, fazer sentido, organizar um lugar humano para existir) — um éthos. Sem esse lugar, a vida não teria nenhum sentido.

O autor ainda pontua que, diante das vicissitudes da vida, dos relacionamentos interpessoais, das necessidades e dos desejos, há uma construção e reconstrução a cada passo, e quem dá sustentação a tudo isso é o agente cuidador.

Além dos autores citados, muitos outros psicólogos, psicanalistas e psiquiatras reconhecem que a base da personalidade está atrelada às primeiras relações que o ser humano tem com os outros. Assim sendo, o vínculo afetivo nos primeiros anos de vida torna-se fundamental para a capacidade de amar e estabelecer relações sociais (Bowlby, 2004) pelo resto da vida.

O assunto da capacidade de amar é tão sublime que a Psicologia enquanto ciência, segundo o autor, evitou tratar o conceito de amor e denominou esse âmbito do desenvolvimento de afetivo. Entende-se que ninguém nasce amando, o amor é algo que se aprende e que se desenvolve de forma dinâmica, especialmente em nossas primeiras relações de amor. Alguns teóricos, partindo desse pressuposto, sugerem que a saúde mental da criança tem muito a ver com a relação contínua amorosa e receptiva da mãe ou de sua substituta. Segundo Bowlby, essa relação pode vir a ser prazerosa tanto para o filho quanto para a mãe ou quem a substitui. Trata-se de uma relação complexa, rica e compensadora; esta é, no primeiro tempo, desenvolvida pela mãe e posteriormente enriquecida pelos parentes: pai, irmãos e outros.

No entanto, Bowlby sugere que, quando essa relação não é bem processada, há uma “privação da maternagem”. Esse tipo de relação é falha, ou seja, quando a criança, em seu ambiente, não recebe os cuidados amorosos de que ela necessita ou, por um motivo qualquer, é afastada da figura de cuidados e não tem uma substituta à altura, há certo sofrimento.

Embora, teoricamente, seja fácil admitir a importância das relações de amor na infância, a disponibilidade para vivenciá-la nem sempre corresponde à intenção. Winnicott sugere, por exemplo, que o padrão de relação que os pais tiveram quando criança influenciará na criação dos seus filhos, podendo muitas vezes haver repetições do tipo de amor e de relação vivenciados. Para o autor citado, o cuidado materno é crucial para a saúde mental da criança, sendo saúde mental definida pela palavra-chave dependência. Ele pontua que os cuidados maternos previnem as distorções precoces. É algo maravilhoso a forma como mãe e criança se suprem. A formação de uma relação recíproca começa na primeira infância e dura para o resto da vida. Portanto, é de crucial importância essa vinculação da criança com um adulto cuidador afetivamente significativo.

É de vital necessidade o cuidador saber cuidar do outro, mas também cuidar de si. Figueiredo, em seu livro As Diversas Faces do Cuidar, comenta que, além da acolhida e sustentação, entre outros, o cuidador deve interpelar e reclamar. Nesse caso, funciona como agente de confronto e do limite. Essa função leva o indivíduo a entrar em contato com os fatos da existência: a morte, a finitude, a alteridade e a lei — funções que são necessárias aos processos de constituição psíquica do sujeito. O contrário dessa atuação é o cuidado que sufoca quando se quer dominar em excesso, configurando-se uma experiência de engolfamento, diz o autor citado acima. É o cuidado que não dá sucesso, é um cuidado que sufoca. Todo exagero é prejudicial, tanto para mais quanto para menos.

Para que se dê o equilíbrio dinâmico no cuidar, diz Figueiredo, é necessário acolher, reconhecer e questionar a fim de que os cuidados proporcionem a instalação de uma capacidade de fazer sentido no indivíduo.

Enfim, podemos dizer que os cuidados recebidos durante a infância terão um significado muito importante na vida do indivíduo; recordações de expressões de amor, disponibilidade, limites que foram recebidos serão transferidos para as gerações seguintes. Daí a necessidade do cuidar. “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e, mesmo com o passar dos anos, não se desviará deles” (provérbios de Salomão). A falta de gratidão, de reconhecimento dos filhos para com seus pais muitas vezes advém da falta de um ambiente “saudável”, onde devem ser exercitados os valores da vida.

Portanto, espera-se que, como pais, avós, professores, cuidadores, educadores sociais ou outra função que exerçamos ou venhamos a exercer, possamos ser bons semeadores da semente do amor, da gratidão, da benevolência e do respeito e, pacientemente, aguardemos a chuva, esperemos que a planta cresça e dê muito fruto e, assim, possamos ter uma boa colheita. Diante das ameaças da vida, nas idas e vindas, nos altos e baixos, os filhos voltarão sempre ao porto seguro, o lugar de aliviar o fardo; por isso, os filhos serão sempre filhos.

Judite Alves. Pedagoga, Terapeuta familiar e estudante de psicologia pela Unicap.

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