espirais

Apoio PedagógicoApoio Pedagógico

Edições Anteriores

Cadastro

Cadastre-se para receber
mensalmente em seu e-mail.


Como levar a criança a amar a escola

Como levar a criança a amar a escola

A relação entre os pais e o filho no momento da entrada na escola maternal condiciona em parte a visão da escola que essa criança vai ter ao entrar na escolinha. Se, desde o primeiro dia, a criança vê os pais parados na grade do estabelecimento com lágrimas nos olhos ou a cara bem fechada, com um ar que parece dizer “É uma vergonha, nenhuma escola deveria ter o direito de nos tirar assim nosso filho”, você pode crer que ela se lembrará disso por muito tempo e pode apostar que essa recordação marcará todas as suas experiências escolares posteriores, sobretudo se a atitude parental não se mudar ao longo das semanas ou dos anos.

O quadro será completamente distinto no caso da criança que ouviu estas palavras dos pais: “Você vai ver, vai ser genial, e queremos mesmo, se você estiver de acordo, partilhar com você o que a professora lhe ensinar”. Mas, cuidado, eu desaconselho formalmente você a falar da boca para fora; não demoraria muito para você ser traído ou desmascarado. A discordância comportamental entre a linguagem das palavras e a linguagem do corpo não escapa a uma criança e, se você lhe diz que está encantado que ela vá à escola, quando pensa justamente o contrário, a criança vai perceber, esteja certo disso. Não esqueça que as crianças têm um diploma em linguagem analógica: esse é, além disso, o único diploma acessível desde a mais tenra idade.

Antes de se lançar em um erudito discurso sobre a escola, é melhor que você se convença a si mesmo do interesse que há em aprender a ler, escrever, fazer contas e realizar, com êxito, outras coisas mais. E também de que a professora não é uma espécie de bruxa sanguinária que deseja pegar seu filhinho. Se, apesar de todos os esforços, você não conseguir, não disfarce e diga categoricamente a verdade a seu filho, contando-lhe, por exemplo, que você, quando pequeno, não ficava muito contente em ir à escola, mas que essa é uma etapa necessária para poder, mais tarde, ter um trabalho de que se goste e poder comprar tudo que se quer (é a atmosfera da época!). Você pode também confessar a seu filho que fica infeliz quando ele vai à escola, mas que a felicidade de brincar juntos quando ele voltar será muito maior. Dizer a base de seu pensamento é mais glorioso e menos arriscado do que “fazer como se”, pois — repito — você não vai enganar ninguém, muito menos seu filho!

Mas o oposto disso também existe: o caso em que os pais impelem o filho aos bancos escolares à maneira de uma catapulta, para que obtenha o mais rapidamente possível os diplomas exigidos pela profissão que eles escolheram quando criança. O culto do desempenho pode levar a esquecer que uma criança não é um QI ou um futuro proprietário de diplomas e, correndo o risco de decepcionar alguns pais, acho que o jogo e a socialização são os objetivos prioritários da escola maternal. Isso significa concretamente que o objetivo da leitura e da escrita deve ser reservado ao início da fase de latência, ou seja, 6-7 anos. Conheço universitários brilhantes que não sabiam necessariamente ler aos 5 anos, e homens e mulheres excepcionais que só concluíram o ensino médio aos 20 anos ou nem isso. “No dia em que compreendi que ela era ela e eu era eu, Valentina começou a render melhor na escola”, contou-me uma jovem mãe. E se você também tentasse pensar como a mãe da Valentina?

O culto do desempenho

O sucesso escolar hoje está, com muita frequência, no centro da ambição familiar. A família contemporânea se acha menos centrada do que a família tradicional no patrimônio econômico (imóveis ou capital financeiro). O ponto de vista que domina não é transmitir, mas permitir que um filho adquira um capital escolar bastante seu, quando não, ter o que não se teve. Cada vez mais, os professores ouvem os pais desejarem que o filho pule uma ou mais séries, e os psicólogos ficam soterrados sob os pedidos de testes que visem a estabelecer um diagnóstico de criança superdotada ou precoce. Ora, viver exclusivamente no culto parental da excelência impede a emergência de um desejo autêntico da criança.

No entanto, um aluno não é um disco rígido de desempenho maior ou menor, e deveria poder montar seu próprio cenário de desenvolvimento. A escola não acolhe alunos-padrão, mas crianças com personalidade própria. Atrás de um artesanato de fachada, não temos a tendência a ocultar uma indústria de massa em que alguns fracassos escolares são, com toda boa-fé, mal abordados por falta de modelos psicopedagógicos adaptados à especificidade das crianças?

Hoje, uma criança pode parecer entediada na sala de aula e ter a cabeça longe dali porque está angustiada pela pressão familiar e social cujo objetivo é fazer dela superdotada; escapar tornando-se uma sem-noção será nesse caso, para ela, a única maneira que a criança encontrou para ser senhora de si a fim de proteger- se da expectativa parental.

Confiar na escola

Como pensar que uma criança possa se instruir em uma escola constantemente criticada pelos pais? Mais do que censurar sistematicamente a professora ou professor, é melhor, enquanto pais, ajudá-los o máximo possível em sua tarefa, ainda que atentando bem para que sua confiança na escola em que você deixa seu filho durante várias horas por dia não seja percebida por ele como uma prova de que perdeu o amor dos pais. Atente mais para isso caso uma irmãzinha ou um irmãozinho tenha chegado recentemente e não hesite, se for o caso, em dedicar bastante tempo a cuidar bem dele e a valorizar seu crescimento. Você conseguirá, assim, alcançar dois objetivos com uma só ação: 1) Você se ocupará da angústia de abandono que seu filho sente; 2) Você levará seu filho a valorizar o fato de ele ser sempre único, já que é mais velho. Concretamente, você pode começar a cozinhar com ele e beneficiar se disso para lhe explicar o que só os grandes podem compreender: por exemplo, como fazer seu doce preferido lendo a receita ou como entender a montagem de um armário graças à leitura de um manual.

Por outro lado, é evidente que as crianças que veem os pais viverem a cultura do livro vão tender a ler mais facilmente do que aqueles que não possuem nenhum livro em casa. O que não quer dizer que se tenha de proceder a um “auto de fé” televisivo e que, no conjunto da casa o aparelho de televisão deva ser substituído por uma imensa biblioteca familiar. Mesmo que você não costume ler muito e que sua cultura se vincule mais à telinha, é importante recorrer às palavras com a maior frequência possível. Por exemplo, se seu filho assiste a um programa ou a um filme com você, e um termo ou uma expressão desconhecidos despertam sua curiosidade, vocês podem procurar juntos sua definição em um dicionário. Você pode, também, escrever para ele um tira-dúvidas linguístico radiofônico ou televisivo. Por fim, há a história da noite durante a qual você pode mostrar não só imagens, mas também palavras para que seu filho mostre, pouco a pouco, o desejo de decifrá-las para ser cada vez mais independente. Mas tome cuidado para interpretar bem essa situação: quando seu filho começa a decifrar palavras e frases, não abandone o ritual da história, pois seu filho pode experimentar esse abandono como um incentivo negativo ao saber, e nada deve desgostá-lo definitivamente de aprender a ler...

ALAMÉDA, Antoine. Comunique-se com seu filho de 6 a 11 anos. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

Todos os direitos reservados | Desenvolvido pela

Tante