espirais

Apoio PedagógicoApoio Pedagógico

Edições Anteriores

Cadastro

Cadastre-se para receber
mensalmente em seu e-mail.


Indecisão e escolha

Indecisão e escolha

Quem tem criança pequena sabe bem o que é a indecisão infantil e sabe também que ela é muito frequente. Quando os desejos são equivalentes, isto é, valem a mesma coisa para ela, a criança não consegue decidir-se claramente por um deles e isso faz com que ela sofra. O resultado, quase sempre, é o choro.

O máximo da indecisão ocorre, geralmente, entre os 3 ou 4 anos e faz a criança sofrer muito. E sofrer mais ainda com a falta de compreensão e de apoio dos adultos. Se, na sorveteria, ela chora porque não consegue se decidir entre tantos sabores, os pais geralmente não entendem e, por isso mesmo, não apoiam. Ela quer decidir sozinha, mas, às vezes, a decisão é difícil demais. Cabe ao adulto ajudá-la. Por exemplo, no caso de sorvete, é dizer que ela vai tomar sorvete todo dia e que a cada dia pode provar um sabor diferente. Já vai aliviar a importância da sua decisão.

Os pais não devem escolher pela criança, a não ser que ela peça ajuda. Mesmo nesse caso é quase certo que ela vá continuar em dúvida.

A indecisão infantil pode ocorrer em qualquer situação: para escolher um programa, decidir sobre a roupa a vestir, definir o que quer comer ou manifestar sua preferência por esse ou aquele brinquedo. Para nós, pode parecer fácil, mas para a criança não só é difícil como pode provocar muito sofrimento.

Muita coisa contribui para provocar a indecisão da criança. Em primeiro lugar, essa é uma crise típica da idade. Ela tem dificuldade para decidir o que é mais importante para ela no momento, principalmente, porque está na idade em que quer tudo e vê-se obrigada a escolher entre duas ou mais coisas de que gostaria, o que significa abrir mão de uma ou de algumas coisas que ela também quer.

Escolher, para ela, é isso: abandonar algum desejo pelo outro e ela não tem a garantia de que vai escolher o melhor. É, também, um problema de insegurança e, quanto mais insegura a criança, maior o seu problema de indecisão.

Os adultos — com uma forma de pensar mais desenvolvida, que podem fazer previsões e que têm valores mais estabelecidos — também costumam ficar em dúvida na hora de determinadas escolhas. Imaginem então a criança que está começando a carreira de decidir.

É por isso mesmo que ela, às vezes, escolhe, para logo ficar arrependida. Ou demora a escolher. Ou chora por imaginar que fez a escolha errada. Ou chora por deixar de ter aquilo que não preferiu.

Os pais de crianças que passam pela crise da indecisão podem ajudar os filhos de muitos modos nessa fase. Podem, para começo de conversa, não se mostrarem e nem ficarem irritados ou impacientes com a indecisão da criança. Podem evitar apressá-las a decidir, porque isso só vai aumentar sua ansiedade e angústia. Podem não perguntar, quando ela finalmente se decide, se ela tem certeza sobre sua escolha.

A propósito, o pior que os pais podem fazer com a criança indecisa é aumentar sua indecisão e sua angústia, dizendo: “veja lá se você depois não vai se arrepender”.

Tentar ser paciente e compreensivo é fundamental para não fixar esse comportamento da criança, que, normalmente, passará em seis meses, um ano. Outra boa atitude é, ao propor alguma coisa para a criança escolher, verificar se ela entendeu bem o que está escolhendo, porque quando ela não entende fica mais indecisa. Quando uma criança pede esclarecimentos, para poder escolher, é bom esclarecê-la ao máximo, com linguagem simples e que possa ser entendida.

Quando a gente pergunta se a criança quer fazer determinado passeio, ela pode dizer que não porque não sabe o que a espera. Em certos casos, por fazer uma ideia errada na cabeça (seja por excesso de expectativa ou porque os adultos exageraram nas promessas), ela pode ficar tão decepcionada que chora e exige voltar imediatamente. Não é bom rebater a criança, dizendo que foi ela quem escolheu e obrigando-a a aceitar a situação. Na verdade, ela não escolheu mal, escolheu mal informada. Por isso mesmo, coisas que ela não conhece não devem ser oferecidas à sua decisão, mas sim como alguma coisa que gostaríamos que ela experimentasse.

Alguns pais, angustiados, insistem em tentar ajudar a criança indecisa, decidindo por ela. Isso é péssimo. Mesmo quando a criança pede ajuda, esta deve ser apenas no sentido de informá-la e não de decidir por ela. Se ela pergunta qual é o sabor mais gostoso do sorvete, devemos deixar claro que isso é questão de gosto pessoal, que o papai prefere tal, mas a mamãe já gosta de outro e que ela é quem deve decidir de qual é que ela mais gosta. Nesse caso, não se deve dizer que tal sabor é melhor do que o outro, mas sim que a gente prefere esse àquele por uma questão de gosto. Assim, a criança perceberá que tem direito a seu próprio gosto e que não precisa procurar o melhor, mas simplesmente aquele de que ela mais gosta, não havendo perda na escolha.

A oportunidade de fazer escolhas é muito importante para amadurecer a criança, para favorecer o desenvolvimento da autonomia e da personalidade. É escolhendo que ela aprende a escolher. Mas o adulto não deve submeter a criança a escolhas que não estejam dentro da sua capacidade de decidir, em desacordo com a sua idade e a sua informação. Escolhas muito difíceis deixam a criança em situação difícil, insegura e angustiada. Muitas alternativas ao mesmo tempo podem deixá-la confusa, perdida, estressada.

Mais que tud. Nem se pode oferecer uma escolha que ela não possa assumiro, o que não se deve mesmo fazer é transferir para a criança a decisão que não conseguimos ou não queremos tomar.

A fase da indecisão passa, mas para isso é preciso que a criança tenha oportunidades, seja estimulada a decidir e não fique muito traumatizada com as escolhas que faz. A criança precisa ter limites e a responsabilidade de escolher é um deles, assim como a responsabilidade pela escolha é outro. Só que não precisamos cobrá-los da criança, porque ela mesma se cobrará.

Seja paciente e compreensivo com a indecisão da criança. Deixe que ela perceba a sua compreensão e o seu apoio quando ela decide e não tente decidir tudo pela criança.

É nessa idade que ela descobre que não pode fazer e não pode ter tudo o que quer, e isso é sofrimento bastante. Decidir, escolher não é fácil, mas é escolhendo que ela descobre que pode fazer valer o seu gosto, a sua opinião, a sua escolha, tornando-se mais autônoma e mais independente. Para vencer essa fase, como sempre, a criança precisa de amor, compreensão e apoio.

A iniciativa da criança

Curiosamente, a crise da indecisão coincide com a idade da iniciativa e de querer fazer tudo sozinha. Ela não quer mais que a vistam, quer tomar banho e pentear-se sozinha, acredita que não precisa mais de ajuda.

Primeiro, a gente acha ótimo: é menos trabalho e menos preocupação. Só que a criança fica tentando realizar cada vez mais coisas e é comum meter- se em tarefas impossíveis e algumas enrascadas. O adulto ri quando a criança enfia as duas pernas em apenas uma das pernas da calça, mas, mesmo sendo engraçado, é bom se esforçar um pouco para não rir, pois se a criança não agiu no sentido de fazer graça, não vai gostar que a gente ria e certamente ficará embaraçada.

Também não devemos dizer que ela tentou alguma coisa que ainda não tem capacidade para fazer: isso é óbvio para ela, é evidente, e a declaração só servirá para irritá-la ou deprimi-la.

Ao contrário, parece que funciona muito a gente aplaudir a criança pela sua iniciativa e por haver tentado, o que significa compreensão e apoio de nossa parte. Isso vai permitir que ela tente de novo, com tranquilidade e sem medo do ridículo, até aprender. Se dissermos que de outra vez ela vai fazer melhor ou que vai conseguir, estaremos dando-lhe tempo para tentar novamente.

A criança sem apoio, ridicularizada, dependente e incapaz, tenta menos para errar menos e, com isso, não se desenvolve, não ganha confiança em si mesma para fazer as coisas sozinha, não conquista a autonomia e vai demorar muito a ser independente.

Apoiada, mesmo errando, ela acaba percebendo que tentar já faz parte da sua conquista e ganha o prazer de vibrar quando consegue fazer o que imaginou.

Às vezes, os pais não entendem que a criança está crescendo, lutando por sua autonomia e independência, que precisa de liberdade até para errar e aprender com o insucesso. Algumas mães ficam ansiosas ao se perceberem menos necessárias, imaginando que, no futuro, seus papéis junto ao filho ficarão muito limitados. É comum verificar que as mães reagem com medo de que o filho não precise mais delas.

Até perceberem que isso não é verdade e que os filhos sempre precisam da gente, só que de modo diferente, há mães e pais que perturbam a conquista da autonomia dos filhos, castrando a iniciativa deles. Quando a dependênciadiminui de verdade (o que só vai acontecer muito mais tarde), aumenta o companheirismo e a necessidade de orientação.

LOBO, Luiz. Escola de pais: para que seu filho cresça feliz. 2. ed. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

Todos os direitos reservados | Desenvolvido pela

Tante