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Comunicação entre pais e filhos

Comunicação entre pais e filhos

“Educar é comunicar e a comunicação entre pais e filhos é fundamental para a educação de qualquer criança.”

Maria Tereza Maldonado é mestra em Psicologia

Clínica e uma grande autoridade nessa comunicação.

Maria Tereza Maldonado, mestra em Psicologia Clínica, observou que, na maior parte das vezes, a comunicação é ruim, ineficaz e até prejudicial ao bom relacionamento e educação das crianças. O problema é que os pais continuam a usar as formas de comunicação tradicionais porque não conhecem alternativas. E porque, embora percebam que elas geralmente não funcionam, nunca receberam informação crítica suficiente para compreenderem o prejuízo que elas podem causar e geralmente causam aos filhos.

Além disso, cada nova etapa do desenvolvimento da criança é um desafio à criatividade e à flexibilidade dos pais, exigindo mudanças na comunicação: “A arte de educar”, escreve ela, “consiste, sobretudo, na possibilidade de os pais crescerem junto com cada filho, respeitando e acompanhando a trajetória que vai da dependência quase total do bebezinho para a crescente autonomia e independência do filho já quase adulto”.

Frequentemente dizemos algo ao filho ou tomamos atitudes que nos desgostam, das quais nos arrependemos. Muitas vezes, reconhecemos, nas palavras ou ações, o mesmo comportamento que condenávamos nos nossos pais, em amigos ou em outras pessoas. O problema é que não sabemos como agir de outra forma.

Antigamente, há 40 ou 50 anos, era aparentemente mais fácil, mais simples, porque havia regras e tradições que não eram questionadas. A criança ainda não era vista como uma pessoa com direitos, e pouquíssimas pessoas atreviam-se a dizer que a educação errada poderia prejudicar os filhos para toda a vida.

Nos últimos anos, a maneira de criar os filhos foi profundamente questionada: os pais passaram a receber muita informação, principalmente da área psicológica. Os debates trouxeram revelações, informações, dúvidas e contradições.

O resultado mais imediato é que a preocupação dos pais, interessados em garantir o bom desenvolvimento emocional dos filhos, acabou por prejudicar a espontaneidade, a intuição e até o bom-senso dos pais.

E eles passaram a procurar, nos livros, a “maneira certa” de educar, um manual de comportamento que pudesse ser seguido, diminuindo suas responsabilidades de tomar decisões. Em muitos casos, os pais fizeram pior: passaram a transferir a responsabilidade da educação para o maternal, para a creche, para a pré-escola e até para a televisão.

Outro complicador foi a mudança da família: afastados das fontes afetivas, pais e mães não têm mais a família extensiva, os avós das crianças estão distantes, não há tias por perto para funcionarem como conselheiras e poder moderador. Família, hoje, é pai, mãe e filho. A participação cada vez maior da mãe no mercado de trabalho deixa a criança, ainda muito pequena, aos cuidados de pessoas quase sempre pouco qualificadas.

As crianças perderam espaço nas cidades, não têm mais quintal e estão limitadas geograficamente. As paredes de um apartamento criam restrições motoras e ao seu comportamento, obrigam a uma convivência muito maior com os adultos e os seus problemas. E mais: a falta de atividade física e de possibilidade de exercê-la colocou a criança quase sem ter o que fazer, dependente da televisão, do vídeo.

Se, por um lado, as crianças hoje falam com mais e mais intimidade e franqueza com os adultos, por outro são mais envolvidas pelas crises familiares, pelos humores dos adultos, são apressadas a um amadurecimento precoce que é o pior resultado dessa comunicação.

O que é ser um bom pai ou boa mãe para o seu filho?

Um dos mitos mais frequentes é o do amor maternal ou paternal, é a ideia de que mães e pais são naturalmente bons para os filhos. Mito é uma ideia falsa, sem correspondente na realidade, e o modo como imaginamos o que é ser bom pai ou boa mãe vai determinar o relacionamento e a comunicação entre pais e filhos.

Há os que imaginam que ser bom é fazer tudo pela criança, estar permanentemente à disposição, ser supersolícito, superprotetor. Quase sempre a superproteção é o resultado da descrença que temos na capacidade da criança de fazer as coisas por ela mesma. Mas, muitas vezes, os pais precisam fazer tudo pela criança para se sentirem úteis.

O resultado mais comum é abafar a autonomia da criança, “castrar” a sua liberdade, impedir que ela experimente e descubra, criar dificuldades para que ela se torne independente, fazer com que ela fique insegura e desconfiada.

Para outros, ser bom pai ou boa mãe é dar tudo para a criança e sacrificar-se por ela. Os pais colocam-se, voluntariamente, em um segundo plano, vivem em função do filho, acreditam que não devem cuidar de si mesmos porque isso seria furtar alguma coisa do filho.

Esses pais, geralmente, estão tentando compensar frustrações de infância, é uma espécie de vingança contra os próprios pais pela maneira como foram criados. Muitas vezes, eles também estão investindo no futuro: eu me sacrifico agora para que no futuro possa receber o reconhecimento, a gratidão e o amparo dos filhos. Uma ideia não exclui a outra e esses pais costumam cobrar muito o sacrifício que fizeram.

O resultado mais evidente é que a criança não desenvolve a capacidade de valorizar o que tem, o que ganha, e tem o seu egocentrismo natural muito reforçado, até que não consegue livrar-se dele no tempo devido, tornando-se egoísta. Além disso, o excesso de permissividade não prepara a criança para viver em sociedade e para dividir, partilhar. Sem ouvir não, ela perde os limites, que são fundamentais para dar segurança e confiança.

Para outros pais, ser bom é ser perfeito, não falhar, ser impecável. Criam, na verdade, um ideal sobre-humano que provoca tensão, ansiedade e exige um esforço permanente. Construindo altas expectativas para si mesmos, exigem a mesma atitude dos filhos, que são adultizados ainda na infância. Geralmente são pais que levam os filhos a muitas atividades além da escola, não só para que fiquem ocupados, mas para que se sobressaiam às outras crianças.

O resultado mais frequente é a frustração, com as imperfeições, com os erros dos filhos. E um apressamento causado pela falta de tempo que essas criançastêm para ser crianças e para brincar.

Ser bom pai ou boa mãe é estar atento, dar apoio, amor e liberdade, dar compreensão, estimular suas qualidades, respeitar seu desenvolvimento natural. E não querer fazer do filho o que queria ser ou o que não pôde ser. Ser bom pai ou boa mãe é também ter a coragem de frustrar o filho, porque essa frustração vai ajudá-lo a crescer.

Mitos não ajudam a educar os filhos

Muitos pais (quase todos, na verdade) acreditam que acompanhar o desenvolvimento do filho é uma tarefa simples e que sabem o que é preciso saber para enfrentar qualquer problema, dificuldade, resistência ou rebeldia. É um mito.

As pessoas estudam anos para ter uma profissão, mas acreditam, sinceramente, que, para educar filhos, não é preciso qualquer preparação: basta fazer o que os pais fizeram ou fazer exatamente o oposto. É um mito.

Mães, principalmente, e pais também acreditam que quando se ama de verdade não se pode ficar irritado e ter raiva contra uma filha ou um filho. E, eventualmente, quando se irritam e ficam com raiva, acreditam que isso prejudica o relacionamento. É um mito.

Os mitos não ajudam a educar os filhos; ao contrário, atrapalham. Educar é administrar ansiedades, conflitos, resistências, dificuldades. E cada etapa do desenvolvimento da criança traz dificuldades e conflitos próprios dessa etapa. Há fases em que a criança tem dificuldade de dormir; outra em que tem problema com o escuro; outra em que alimentá-la vai ser um problema; há fases em que a criança é extremamente possessiva; há horas em que se mostra desesperadamente dependente da presença dos pais. É preciso saber enfrentar cada situação e entender por que aquilo está acontecendo, para ter paciência e compreensão. Toda fase passa, mas é preciso saber lidar com a criança, para que as dificuldades, características de uma etapa do seu desenvolvimento emocional, não se tornem crônicas. O xixi na cama, por exemplo.

Para que o relacionamento pais e filhos seja o melhor possível e cada etapa seja vencida espontaneamente, não é imprescindível ser bem informado. Há pais e mães que passam fase por fase com calma, enfrentando os conflitos

e as dificuldades sem se deixarem abalar. Mas há os que não têm paciência, os que se assustam com as dificuldades, os que faziam uma imagem idealizada da criança e do processo de desenvolvimento, os que não sabem administrar conflitos, vencer resistências e enfrentar rebeldias. Esses, geralmente, reagem contra as crianças com violência.

“O problema dos mitos, é apresentar um ideal rígido demais, que nunca pode ser completamente atingido numa relação real e isto acarreta frustrações, sentimentos de culpa e fracasso quando se vê que, no dia a dia, acontece

algo muito diferente da imagem que formamos.”

Maria Tereza Maldonado

Mesmo o choro de um bebê pode ser interpretado, por esse tipo de mãe e pai, como um desafio à sua autoridade e poder. A ofensa toma um vulto tão grande que, depois de tentar vencer o choro com tentativas superficiais, dão-se ao direito de reagir contra o bebê, agredindo-o.

A uns e outros pais seria útil ter mais informação. Aos primeiros, porque teriam um reforço capaz de fazer suportar as críticas que normalmente recebem por sua atitude de calma e de “ir levando” para superar os problemas. Aos outros para que saibam como enfrentar o desenvolvimento e lidar com as dificuldades, o que permitirá entender a atitude e o comportamento da criança.

O problema da raiva contra a criança, por exemplo: não tendo informação suficiente, ou paciência, mães e pais ficam irritados e, depois, com raiva quando a criança pequena (e mesmo o bebê) não reage exatamente como esperavam.

Embora sintam-se culpados com a própria raiva, essa culpa aumenta a reação, que é sempre desproporcional à ação dos filhos.

Há ainda um outro fator importante na agressão de pais contra filhos: qualquer reação ou resistência, qualquer comportamento que degrade ou irrite, provoca a ira dos pais, que descarregam nas crianças as tensões, as frustrações e as insatisfações que sentem em relação a outras pessoas com quem se envolvem no dia a dia. Não podendo bater no chefe, por exemplo, batem no filho. Até porque, desinformados, esses pais veem os filhos como propriedade, sobre os quais têm poder absoluto e dos quais podem dispor como quiserem. Esse tipo de mãe e de pai não consegue ver o filho como uma pessoa.

Ao mito do poder absoluto contrapõe-se outro, menos comum, mas igualmente prejudicial à educação da criança: o de quem tem pouca ou quase nenhuma autoconfiança e imagina que tem pouca capacidade de amar e cuidar bem do filho. Isso gera insegurança, desconfiança, apreensão e sofrimento, porque essa pessoa está sempre à espera de algum fato que seja a prova do mal que pode fazer à criança. Esse tipo de mãe e pai é o que mais recorre aos livros como um manual de funcionamento da criança. Quando o manual não dá certo, atribuem a culpa a si mesmos. O resultado é não poder relaxar para ter um bom relacionamento e prazer na relação com os filhos.

É preciso reconhecer os mitos e evitá-los. Encarar o filho como pessoa, única, individualizada, com reações próprias. É importante não fazer projetos e moldes ideais. É bom não ter expectativas e sonhos de fazer da criança uma segunda edição melhorada dos pais. É útil não ter uma boa imagem fixa, imutável, idealizada da criança.

Ser mãe ou ser pai de verdade é ter a capacidade de perceber as muitas crianças que há em cada criança, e como ela vai mudando à medida que vai crescendo e vivendo, aprendendo e desenvolvendo suas peculiaridades.

Ser mãe ou ser pai é vencer as dificuldades pessoais que podem prejudicar o relacionamento com os filhos. Por exemplo, quando enxergamos, na criança, coisas de que não gostamos em nós mesmos ou quando o filho tem uma característica muito semelhante à nossa e da qual não gostamos. Ou quando a criança não tem os mesmos gostos, ou tem uma visão do mundo diferente da nossa.

Ser mãe ou ser pai é não usar a criança como bode expiatório, sacrificando- a sempre que alguma coisa sai errada na casa. É não usar a criança como instrumento de disputa entre o casal. Ser mãe ou ser pai é difícil, mas pode ser muito divertido.

Os pais, muitas vezes, têm muito prazer com o fato de ser o mito dos filhos. Ser mãe ou pai é não deixar o mito subir à cabeça, a ponto de perturbar o julgamento dos filhos.

LOBO, Luis. Escola de pais: para que seu filho cresça feliz. 2. Ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1997

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