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Como é que se realiza a afetividade da criança?

Como é que se realiza a afetividade da criança?

Mães e pais, geralmente, nem desconfiam da importância que tem o desenvolvimento da afetividade para a criança e para o seu futuro. A tal ponto que, em todo o mundo, a maior carência das crianças talvez seja a carência afetiva.

Em primeiro lugar, é preciso entender que para o bebê e a criança pequena o amor precisa ser traduzido na sua linguagem. Amor é atenção, cuidado físico, carinho. Em segundo lugar, é indispensável compreender que a afetividade não se realiza sobre a desatenção, o medo, a ameaça, a insegurança, gritos, desespero, sobre o desagrado ou a acomodação a uma situação injusta.

A carência afetiva tem pouco a ver com outras carências e ela pode ocorrer e ocorre em qualquer classe. Se a condição de vida da maioria da população é de pobreza, sofrimento, má nutrição, trabalho duro por salário insuficiente, insegurança e revolta, é evidente que seus filhos chegarão à escola em desvantagem. Às vezes, em grande desvantagem, por falta de comida e problemas de saúde. Mas se observarmos os casos de pessoas muito pobres que venceram na vida e sobreviveram às dificuldades com sucesso, vamos verificar que quase todas elas viveram em famílias em que havia a esperança de melhorar de vida, em clima de amor (ou, pelo menos, de respeito familiar), e eram amadas, cuidadas e protegidas. Isso significa dizer que não foram negativamente marcadas pela pobreza, nem definitivamente sacrificadas pelas suas carências físicas e pelas situações sociais de risco, porque tinham uma família, tinham atenção, carinho, desenvolveram bem o seu afeto.

Outro elemento que parece ser muito importante no bom desenvolvimento afetivo da criança é a religiosidade da família e, mais importante ainda, a sua fé. Ela ajuda a enfrentar dificuldades e cria um ambiente aproximador na família. Além disso, a transmissão de valores espirituais e morais contribui, de forma comprovada, para criar uma cumplicidade e uma união muito importantes sob o aspecto afetivo.

Nas piores condições de sobrevivência, nos campos de concentração nazistas, por exemplo, muitas crianças foram capazes de crescer e de apresentar um desenvolvimento surpreendente para quem não sabe que mesmo lá elas brincavam e tinham o máximo de atenção e amor. Não se pode dizer que esse ou aquele aspecto do desenvolvimento seja mais importante que o outro. Mas algumas crianças com poucas possibilidades de desenvolvimento físico admitem recuperação depois dos seis anos de idade. Certas crianças com problemas de desenvolvimento intelectual são socorridas depois dos seis anos e acabam retomando um desenvolvimento normal.

Porém, é quase impossível recuperar a carência afetiva e apagar as cicatrizes sobre a personalidade da criança que foi rejeitada e que não recebeu amor e atenção suficientes. Desde o primeiro minuto de vida, o bebê mostra-se sensível e receptivo ao estado de ânimo das pessoas em volta, especialmente da mãe. Dos inúmeros estímulos que ele recebe do meio ambiente, o que mais importa para ele é a atenção da mãe. O amor, para o recém-nascido e para a criança pequena, só é compreensível por meio de estímulos físicos: presença, contato direto, o cheiro, a voz. E é a partir do amor que o bebê realiza sua primeira tarefa na vida: organizar mentalmente o mundo que o cerca para poder entendê-lo e para situar-se. É uma tarefa pesada, que requer todo o apoio possível e bastante estímulo, amor e liberdade.

Sem amor ela não tem confiança e sem liberdade não tem oportunidade para a prática de viver. Um educador inglês, A. S. Neill, afirmava que as crianças “não necessitam tanto de ensino quanto de amor e compreensão”. Pais realmente amorosos e atentos são os que têm capacidade de criar bem.

Uma série de experiências comprova que os bebês reconhecem a voz das mães e reagem mais a elas. Também reconhecem a voz dos pais, mas, não se sabe exatamente por quê, reagem menos a ela. Isto significa que a mãe tem um papel fundamental no desenvolvimento intelectual do bebê. Em primeiro lugar, com a sua presença. Em segundo lugar, atendendo às suas necessidades básicas, o que transmitirá confiança à criança. Em terceiro lugar, estimulando os seus sentidos.

LOBO, Luiz. Escola de pais: para que seu filho cresça feliz. 2. Ed. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1997.

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