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Da dependência para a autonomia

Da dependência para a autonomia

O desenvolvimento emocional, em linhas gerais, pode ser concebido como um longo caminhar da dependência quase total do bebezinho para a interdependência do adulto, que dá e recebe em uma relação madura de troca. Uma das principais tarefas dos pais é ajudar a criança a crescer para ser um adulto responsável, capaz de tomar decisões e fazer escolhas. Afinal, a grande meta da criação dos filhos é torná-los pessoas capazes de cuidarem bem de si próprias e dos demais.

A autonomia da criança é a principal manifestação de seu crescimento. Em outras palavras, na maior parte do tempo, o impulso para a progressão é mais forte do que o impulso para a regressão. Para a criança, embora sentir-se crescendo seja, em alguns momentos, assustador, o crescimento e a autonomia trazem orgulho e alegria.

Os pais costumam sentir a crescente autonomia da criança de modo duplo. Por um lado, ficam contentes de ver o filho crescer e desprender-se gradualmente; por outro lado, podem sentir a dor da separação, encarando o crescimento do filho como uma perda. Talvez uma das maiores dificuldades de ser pai e mãe consista em deixar que os filhos se afastem para que depois se aproximem outra vez, em um vínculo mais adulto. Alguns pais sentem-se “rejeitados” quando passam a ser menos solicitados: ficam com medo de serem inúteis, de ficarem sozinhos ou de perderem a função como pais. Se esse sentimento for muito intenso, pode provocar dificuldades de perceber a capacidade que a criança tem de fazer coisas por ela mesma, resultando em uma conduta de superproteção, na tentativa de abafar sua autonomia. Há pais que, mesmo com filhos adolescentes e adultos, continuam referindo-se a eles como “as crianças”, insistindo em infantilizá-los (o que, de certa forma, também é pedido pelos filhos, que gostam das “mordomias” e das “paparicações”) para evitar encarar as questões do crescimento e do envelhecimento.

A crescente autonomia dos filhos costuma assustar e ameaçar os pais também por fazê-los sentir que já não estão com as rédeas na mão, que não conseguem controlar tudo e, muito menos, “modelar” o filho conforme desejariam. O medo da autonomia e da individualidade do filho e, por conseguinte, a necessidade de controlá-lo pode começar muito cedo, até mesmo na gravidez. Ana Amélia, 22 anos, “interpretava” os movimentos do feto como exigências e solicitações. Acreditava ser obedecida de imediato quando falava com ele para esperar e ficar quieto. Com isso, criou a expectativa de exercer controle sobre o bebê depois de nascido, negando a realidade do filho como pessoa diferente dela.

Respeitar a autonomia da criança e do jovem implica não só em aceitar os filhos como pessoas diferentes de nós como também acreditar que existem várias maneiras “certas” de reagir ou de se conduzir em determinadas circunstâncias. Muitos pais sentem dificuldades de enxergar que existem alternativas válidas e fazem imposições desnecessárias, esperando que os filhos pensem como eles ou se comportem de um determinado modo (“Eu sei o que é melhor para meu filho”).

O pai de Marcelo não admite que o filho consiga estudar ouvindo música ou vendo televisão, embora o rendimento escolar do menino seja excelente. Marcelo consegue estudar e aprender dessa maneira porque tem boa capacidade de concentração. O mesmo acontece com a mãe de Laura, que insiste em impedir a filha de fazer os deveres assim que chega da escola, por achar que é hora de “descansar a cabeça”; não consegue perceber que Laura acha melhor não “perder o embalo” para logo poder ficar despreocupada e ter mais tempo livre para brincar.

Algumas tendências e preferências das crianças assustam os pais, fazendo com que eles sintam que estão “perdendo terreno”, o que pode resultar em verdadeiras guerras no relacionamento. A área da alimentação é a que com mais frequência acarreta esse tipo de problema. Inúmeros pais acham que a criança tem que comer tudo e de tudo e se desesperam quando o filho seleciona — autonomamente — a quantidade e a qualidade de comida. Os pais acham difícil aceitar as inevitáveis flutuações de apetite e preferências e tentam submeter a criança a um “padrão ideal” de alimentação, forçando-a a comer, ou fazendo ameaças, promessas e barganhas, transformando a hora de comer em um momento de tortura. A criança aceita a “guerra” e quase sempre sai vitoriosa, controlando os pais, deixando-os ansiosos e até mesmo desesperados quando não quer comer.

No entanto, apesar das dificuldades e dos temores que muitos pais sentem frente ao desenvolvimento da autonomia da criança, sua tendência ao crescimento tem muito a ensinar aos pais. Uma das tarefas mais delicadas e complexas dos pais é crescer junto com o filho, acompanhando seu desenvolvimento. Isso depende da capacidade de reformular modos de ser e de atuar para melhor adequar-se às diferentes necessidades e às situações que se sucedem no decorrer da vida.

Por outro lado, os filhos podem “fazer a cabeça dos pais” — a adolescência é uma época revolucionária, de novas ideias e muitos ideais, sonhos e projetos. Quando há, por parte de pais e filhos, a possibilidade da verdadeira escuta e a aceitação de que cada geração vê os acontecimentos da vida sob determinados ângulos, haverá a oportunidade de enriquecimento recíproco, da ampliação das descobertas, da reflexão e do entendimento.

O desenvolvimento da autonomia não ocorre de repente na idade adulta. Vai acontecendo aos poucos. Assim como o desenvolvimento emocional caracteriza- se por um jogo de progressões e regressões, também o desenvolvimento da autonomia e da independência está mesclado com as necessidades de dependência, de se sentir cuidado e protegido. A criança sente-se alegre e orgulhosa quando consegue fazer algo por conta própria e, por outro lado, frustrada, irritada e impaciente quando tenta, inutilmente, fazer algo que só “gente grande” consegue.

A criança gosta de crescer e ver que já pode fazer coisas que há pouco não conseguia (“Olha, mãe, consegui vestir a camisa sozinho!”), mas, vez por outra, solicita: “ Mãe, hoje você veste a camisa para mim, tá?”. É bom atender a essas solicitações ocasionais, pois a criança precisa certificar-se de que pode crescer sem medo de ser deixada de lado. Precisa sentir que pode continuar a contar com as pessoas.

A crescente autonomia pode, portanto, assustar a própria criança ou o adolescente. Este, por um lado, quer defender com unhas e dentes sua liberdade, mas, em outros momentos, insiste em prestar contas de seus atos; quando faz algo escondido dos pais, comumente deixa pistas para ser descoberto. “Gato escondido com o rabo de fora”, age como se estivesse pedindo que os pais continuem a se responsabilizar por ele.

As solicitações que os filhos fazem em relação aos pais vão se transformando no decorrer do desenvolvimento, desde a solicitação quase total do bebezinho até os pedidos disfarçados do adolescente, que detesta se ver dependente. É importante ressaltar que as solicitações não existem apenas no contexto pais-filhos, mas também em outros relacionamentos, especialmente no casal: o homem solicita que a mulher cuide de sua roupa ou lhe traga café; a mulher solicita que o homem faça uma instalação elétrica ou que vá ao banco pagar as contas. Em muitas situações, as pessoas podem fazer as coisas por conta própria, com autonomia, mas fazem reivindicações e solicitações não só para dividir tarefas, mas também para se sentirem importantes, atendidas e merecedoras de atenção e cuidados.

É possível favorecer o desenvolvimento da autonomia mesmo quando a criança ainda é bem pequena. Para isso, os pais precisam lhe dar oportunidades para fazer escolhas que estejam ao seu alcance. Uma criança de 2 anos já pode escolher se quer tomar um sorvete de morango, chocolate ou limão; uma criança de cinco pode escolher a peça de teatro que quer ver. Com isso, exercita-se a capacidade de tomar decisões, de saber o que quer e de escolher o que é melhor para si.

No entanto, é importante delimitar a margem de escolhas a serem oferecidas para a criança. Isso varia de acordo com sua idade e maturidade. A capacidade de exercer autonomia é uma aquisição gradual; todavia, há pais que delegam à criança escolhas pesadas demais, fazendo-a sentir-se temerosa e insegura.

Quando Alice fez 3 anos, o pai a levou a uma enorme loja de brinquedos para que escolhesse o que gostaria de ganhar. A menina ficou confusa, ansiosa e perdida. Acabou escolhendo um brinquedinho qualquer, com o qual nem teve vontade de brincar. Pode acontecer que, em determinadas situações, os pais se sintam inseguros e indecisos e, por isso, tentam transferir a responsabilidade da escolha para a criança. Foi o que aconteceu com os pais de Ana, de 2 anos, que não conseguiam decidir em qual de duas escolas matriculariam a filha: levaram a menina para conhecer ambas a fim de que “escolhesse” em qual gostaria de ficar.

Outro problema é dar oportunidade à criança de escolher a tal ponto que as necessidades dos pais ficam em último plano, transmitindo à criança a falsa noção de que é a pessoa mais importante do mundo. A criança passa a decidir quase tudo, dominando e tiranizando os pais submissos, que se comportam como “súditos”. Isso acontece em famílias que custaram muito para ter o filho (longos tratamentos de infertilidade, grande espera para conseguir adotar). Por valorizarem em excesso o lugar da criança ou por sentirem pena por ela ter sido abandonada pela família original, esses pais tendem a construir a vida em função de atender aos desejos da criança, que, em consequência disso, fica com dificuldade para aprender a ter consideração pelos desejos e pelas necessidades dos outros.

Quando se dá à criança uma faixa definida de opções, fica mais fácil para ela saber o que escolher e mais fácil para os pais colocarem limites razoáveis nas possibilidades de escolha. Para uma criança pequena, é mais tranquilo escolher entre duas ou três roupas para ir à pracinha do que ficar indecisa diante de um armário cheio.

Educar para a autonomia implica, fundamentalmente, dar responsabilidades à criança, deixando, pouco a pouco, de fazer por ela o que já consegue fazer sozinha, ou deixar de intervir em situações que a criança já pode resolver por conta própria. Muitas brigas entre irmãos deixariam de existir se não fossem “alimentadas” pelas contínuas intervenções dos pais, que não permitem que a briga seja resolvida entre as próprias crianças. A atitude de não interferir, sempre que possível, estimula a independência e o crescimento.

Quando a criança não tem certeza de que suas opções serão respeitadas ou nos períodos em que se sente insegura, precisando reafirmar sua autonomia e individualidade, costuma escolher por oposição a alguém. Renata perguntou à mãe se achava melhor vestir a blusa vermelha ou a amarela. Assim que a mãe disse que gostava mais da amarela, Renata disse: “Então, eu quero a vermelha”.

Crianças e adolescentes com frequência dizem “não” para se sentirem diferenciados, autônomos e livres. Para isso, ficam contra as pessoas de quem temem ficar dependentes. Nesse contexto, estar de acordo ou fazer escolhas semelhantes representa o risco de despersonalizar-se, virar espelho dos outros, sem feições próprias, fazendo o que todo mundo quer.

A dificuldade de enxergar o filho como pessoa diferenciada, e não como “segunda edição” dos pais, significa aceitar que ele pode ter vida própria e fazer escolhas que não se encaixem em nossas expectativas ou nos projetos que construímos para ele. Isso é especialmente importante quando o filho já é adolescente ou mesmo adulto.

Há pais que manifestam sua dificuldade de aceitar que o filho já cresceu e tem vida própria por meio da invasão da privacidade. Para a maior parte dos adolescentes, seu quarto, seus pertences, seus escritos, seus telefonemas intermináveis constituem um mundo particular que precisa ser respeitado e não esquadrinhado, remexido, investigado. O medo de ver os filhos andarem por caminhos tortos estimula essas atitudes de controle e vigilância indevidas. Para muitos pais, é duro observar que os filhos crescidos escolhem caminhos de vida, atitudes e valores diametralmente opostos aos seus desejos. Decepcionam-se quando percebem que, apesar de todo o esforço feito para que seguissem o modelo dos pais, os filhos decidiram tomar outros rumos. Quando os pais admitem que há várias maneiras válidas de viver, a decepção pode transformar-se em aprendizagem.

MALDONADO, Maria Tereza. Comunicação entre pais e filhos. 27ª ed. São Paulo: Saraiva, 2004.

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