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Limites e conflitos na adolescência

Limites e conflitos na adolescência

A adolescência começa aos nove anos de idade (três anos antes da puberdade), e termina aos dezoito ou dezenove, ou, segundo alguns autores, aos vinte e sete. Nas últimas décadas, os adolescentes têm apresentado um aumento vertiginoso de problemas comportamentais como consequência de conflitos íntimos (normais), progresso da civilização e pais e educadores não adaptados à educação moderna.

Seus conflitos íntimos são normais, têm causas pessoais, sociais, escolares e familiares, principalmente paternas e maternas. Aberastury (citado por SAITO, 2011, pp. 5, 105-113) reúne, em Síndrome da adolescência normal, um conjunto de “sinais e sintomas” próprios dos adolescentes, no seu esforço para atingir os seguintes objetivos: encontrar uma nova identidade, inserir-se no grupo social, aceitar seu corpo em transformação, determinar a sexualidade. Estes objetivos lhes permitem chegar aos valores do “mundo” portando excelentes razões para viver. Só que as dificuldades para administrar estresses, evitar alterações de humor e distúrbios comportamentais dos adolescentes são maiores ou menores, dependendo das autoaquisições na infância.

Muitas de suas alterações de humor, desagradáveis e inconvenientes para terceiros, são normais porque, como criança, o adolescente foi educado tendo modelos para seguir, e na adolescência, que exige afastamento progressivo até a saída definitiva do lar (considerada “outro nascimento”), o “mundo desconhecido” passa a ser seu modelo. Ele é inseguro e tem comportamento ambíguo e imprevisível porque os valores do lar (restritivos e controladores) contradizem e conflitam com os do mundo (que o convidam a tudo), mas tanto os valores como os conflitos são indispensáveis, benéficos para o adolescente evoluir. Ele precisa lançar-se no “mundo”, desligando-se aos poucos do lar, assumindo progressivamente e conciliando valores antagônicos, porque não pode abandonar os familiares, por serem o alicerce da sua personalidade. Então, para que realmente não abandone os valores do lar até sua maturidade se completar, os pais são obrigados a impor leis e regras com limites, ritmo e disciplina que geram conflitos. Como fazê-lo com o mínimo de traumas para ambos os lados?

Os pais continuam interessados em que o filho adolescente chegue cedo, durma, estude, evite brincos ou piercings, ou bebidas alcoólicas, ou drogas, não fume, coma bem em refeições regulares. Mas, para ser incluído socialmente, este adolescente precisa seguir as tendências do seu grupo. É normal ir contra os pais para assumir novos valores, imitando outros modelos e seguindo orientadores diferentes; todos os seus pares estão na mesma situação, à procura de modelos, e os encontram nos próprios companheiros, uns funcionando como modelo para os outros: imitam-se de forma mútua e elegem um deles como líder e orientador ou alguém de fora, algum personagem famoso, de sucesso nos esportes, na música, no teatro ou no cinema, para ser seguido e imitado.

Portanto, conflitos entre pais e adolescentes são inevitáveis, muitas vezes com desentendimentos e rupturas que, na autoestimulação precoce e continuada, não ultrapassam os limites do racional. Na verdade, esses conflitos são obrigatórios, úteis e, quando bem conduzidos, com racionalidade, chegam ao entendimento e conciliação: filhos migrando da família (mantendo suas leis) para o exterior e pais aprendendo com os filhos a conhecer o “mundo atual”, adquirindo ótimas condições para atravessar essa fase.

Todo esse processo é facilitado quando os pais entendem que é importantíssimo, crucial, o adolescente, fora do lar, atuar com muita autossegurança e autoconfiança para ser incluído nos grupos sociais, superando obstáculos na autoaquisição de sua nova identidade, sexualidade e imagem corporal. Como essa autossegurança só vem com o treino e com os sucessos obtidos nos ambientes frequentados, e como a experiência do adolescente, até então, foi adquirida basicamente no lar e nos ambientes sob a supervisão dos pais, é nesses mesmos ambientes que ele deverá autoconquistá-la com autoconfiança para enfrentar o mundo. Mas isso só acontece quando há disputas com os respectivos pais, de cujas disputas os filhos precisam sair sentindo-se vitoriosos: mais “bonitos, fortes, sabidos e inteligentes” do que seus contendores; o menino disputa com o pai a soberania em hobbies, inteligência, esportes e intelectualidade, enquanto a menina disputa com a mãe a soberania em beleza física (primeiro e mais importante valor disputado), seguida dos mesmos valores citados para os meninos. As disputas acontecem em conversas, discussões e atitudes. Como dizia Freud, os filhos precisam “matar ou destruir” os pais em suas fantasias para sentir ser deles todo mérito das autoconquistas a ser “depositado” no inconsciente (base da personalidade) enquanto autoconquistam méritos exteriores ao lar.

Em geral, é difícil pais experientes “perderem disputas com seus filhos”, e querendo se tornar “bons exemplos” a ser seguidos, insistem em vencê-los para que os imitem e às suas “excelentes qualidades”. Mas o que os filhos precisam mesmo é vencer os pais e, quando são vencidos, veem-nos como obstáculos intransponíveis à sua aquisição de autossegurança. Então, lançam-se em busca da vitória final a “qualquer custo”, decididos até mesmo a “destruí-los para sempre” em fantasia, ou até fisicamente, se já apresentarem distúrbios comportamentais. Repito. Adolescentes precisam vencer os pais; eles não copiam seus modelos, como eles próprios faziam na infância. Pais muito evoluídos são, sem dúvida, mais difíceis de ser vencidos. Por isso, precisam ser “humildes”, deixar-se vencer de propósito para que os filhos intuam que seus pais os “aceitam” em sua “maioridade”, capazes de absorver novos valores. Só assim continuarão a valorizar seus pais sem descartar os valores autoadquiridos no lar durante toda a infância e na fase atual. Pronto. Estão criadas as ótimas condições para estes valores se manterem como alicerce para sucessos futuros.

Nunca evite conflitos entre gerações, porque eles são os momentos adequados para pais e filhos adquirirem segurança, dialogarem, discutirem e se atualizarem em todos os assuntos. Quando um adolescente levanta um conflito, está “ pedindo” uma conversa, uma disputa com os pais, para aprender a viver. Agredir, irritar pessoas são maneiras de intimá-las a discussões, das quais, os pais nunca devem fugir, mas aceitar com força, determinação e segurança, como valores a serem incorporados de modo verdadeiro pelos filhos adolescentes.

Sei que para muitos pais isso pode ser um sacrifício, mas asseguro que vale a pena, porque suas falsas derrotas se tornam pequenas diante da vitória final – o sucesso educacional dos filhos –, ao constatar que eles desenvolvem confiança crescente em relação aos pais, ouvindo e acatando suas colocações, mesmo sem concordar enquanto os conflitos escasseiam com rapidez, para logo desaparecem. Segundo Winnicott, os conflitos entre gerações iniciam-se na primeira mamada do recém-nascido ao seio materno, quando, bravo pela “traição da mãe que o expulsou” do útero, ele quer destruí-la, mordendo o bico do seu seio. Mas, ao se ver “salvo” da fome por ela, instala-se nele um conflito: “está odiando quem o está salvando”.

Se, para não conflitar, os pais concordarem falsamente, estarão mentindo para os adolescentes, fingindo acatar valores que em geral não aceitariam, só para se colocar no mesmo nível deles. Muitos até os acompanham em seus programas, pretendendo servir de modelo a ser seguido, mas esquecendo-se de que pais podem ser apenas amigos dos filhos, não seus pares. Filhos adolescentes não aceitam seguir o exemplo dos pais e, ao verem-nos como mais capazes, pretendem demonstrar para si mesmos que podem vencê-los. Vendo-os como pares no mesmo grau de evolução, vencê-los não tem grande valor. A evolução e maturação de filhos “amigos” dos pais retardam-se, e talvez nunca se completem, porque os filhos assumem comportamentos infantilizados quando tutelados pelos pais e prolongam ao máximo sua saída do lar, casam tardiamente, “inventam” novos cursos. Essa evolução lenta, que prolonga a adolescência em seu aspecto biopsicossocial, bem recebida de início, acaba agredindo a família, que se vê sem autoestima por não ter sido bem-sucedida na educação dos filhos no que se refere à sua maturação. É frequente jovens com esse perfil tornarem-se dependentes da presença dos pais e familiares para serem autenticamente felizes, e, para manter a falsa felicidade por eles superofertada, incorrerem em atividades de risco, drogas e gravidez não planejada.

A tendência de prolongar a adolescência está sendo cada vez mais observada nos filhos, assim como dos pais em acompanhá-los. Trechos do trabalho Dossiê Universo Jovem – MTV-3, desenvolvido pela MTV Brasil, publicado em 2005, dão uma excelente ideia do que adolescentes, pais e especialistas pensam a respeito de assuntos ligados à adolescência:

Jovens entre 25 e 30 anos dizem: “Na minha mesa de trabalho tenho dezenas de brinquedos, bonecas […]”, “Não vejo a hora de não sair de casa” (pp.21 e 22).

O sociólogo Frank Furedi explica: “[…] é uma insegurança em relação ao futuro […] reflete uma aspiração reduzida à independência, ao compromisso e à experimentação” (Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 25/jul/2004).
Na fase da euforia inicial: “Eu e minha mãe, a gente tem uma relação muito de amiga”; “Minha mãe gosta das mesmas coisas que eu” (p.22).

Depois da euforia: “Eu vi a minha mãe ficando e olha… foi horrível”; “Tem pai com 45 anos querendo sair, pegar mulher, pegar onda… é ridículo, não é legal” (p.22).

Concordo com Ana Maria Caleiro (psicóloga da Escola Vera Cruz): “Pai tem que ser pai. Amigo é outra coisa. Você pode ser um pai que facilite a conversa, mas nunca pode sair do papel de pai e mãe” (Dossiê Universo Jovem, p. 24).
“Quanto à importância dos limites, Tania Zagury (p. 103) nos dá apoio: “[…] será difícil estabelecer limites a partir da adolescência […] a parte mais difícil para reverter o processo é a mudança a ocorrer primeiro nos pais” (grifos nossos). Mas, martírio para corrigir filhos adolescentes implica sofridos esforços para mudanças dos estímulos ambientais, que levam a maioria a adiá-las ou desistir. A prevenção, por meio da autoestimulação precoce e continuada, é o melhor caminho.

KLAJNER, Henrique. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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