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Os pais devem dar aos filhos tudo o que não tiveram?

Os pais devem dar aos filhos tudo o que não tiveram?

Alguns anos mais tarde, serão esses mesmos pais a lastimarem o quanto terão que gastar com filhos adolescentes a exigir, como direitos adquiridos, os excessos aos quais foram habituados e, quando tentarem refrear, sua reação será, no mínimo, de revolta [...] quando agem de maneira excessivamente generosa, o que eles estão estimulando é a valorização apenas do ter em detrimento do ser [...] esquecem de revelar-lhes o seu valor como ser humano pelo que tem de bondade, generosidade, honestidade, caráter e honradez, amor ao próximo [...]
(Zagury, 2003, p.82).

Na vida, tudo tem limites extremos, como o sim e o não, o positivo e o negativo. O ato de dar também tem os dois extremos: o que dá e o que recebe. Na educação, pais e filhos doam uns aos outros, mas filhos, pelo menos até a adolescência, recebem mais. Os filhos doam aos seus pais “tudo” que têm e sabem, mas, como doadores, os pais, tendo e sabendo infinitamente mais, precisam antes definir o que lhes doar e saber que é impossível doar o que nunca se teve, sobretudo se o objeto doado for abstrato, como conselhos, sensações, sentimentos e experiências. É preciso, antes de doar, ter tido alguma experiência com o objeto ou os valores abstratos, possuindo-os ou vivenciando-os, para que cheguem cheios de essência e das emoções imprescindíveis para serem autênticos e profícuos; sem isso a adoção simplesmente acontece, mas não existe de fato, acima de tudo em relação ao objeto abstrato.

O ser humano, por ser o animal que pensa, além de viver e sobreviver como os outros seres vivos, cria fantasias, com desejos, necessidades e opções, e evolui com iniciativa, esforços e empenho para concretizá-los e autoconquistar a felicidade autêntica. Ele nasce com o instinto da evolução, que o faz sentir-se autenticamente feliz, que existe e é. Existindo, é bem recebido nos meios sociais, inclui-se neles e sente que a eles pertence, dando-se conta de que, na vida, para tudo é preciso permutar, constante e progressivamente, com o mundo inteiro, mas tão somente valores belos e autênticos, que reflitam a sua imagem, e não aqueles que não possui, sob pena de doar algo vazio, fugaz, pouco educativo e não enriquecedor. Concordo com Nietzsche: “O homem se vê refletido nas coisas, ele considera belas todas as coisas que refletem a sua imagem” (Alves, 2004b, p.113), porque ao doar, estamos nos doando, e nunca podemos dar algo que não somos.

“Doações vazias” dos pais significam, para os filhos, autoconquistas sem a essência daqueles que representam a origem das suas maiores autoaquisições; valores abstratos, como ideias, mensagens, conselhos, opiniões, sem que tenham antes sido vivenciadas, soam como discursos sem estrutura. Segundo Rubem Alves (2000b, p.80), “A palavra é uma entidade material; a linguagem, uma ‘treliça’ em que a vida se entrelaça, sulco em que a ação se escoa, teia sobre o espaço onde se pode viver e andar ou rede em que o corpo descansa suspenso”.
Palavras abstratas, sem vivência anterior, não têm espaço para a vida para nem para a ação. Os filhos, para aderir aos pais e, ao mesmo tempo, se sentirem valorizados e merecedores das suas doações, precisam também valorizar suas personalidades, mas isso só ocorre quando recebem seus valores reais e autênticos.

Não ofertar autenticidade é fiel companheiro do mimar para não bem educar. Rubem Alves, como já citei, em todas as suas obras faz alusão ao homem como destinado ao prazer, a partir de desejos, mas o desejo só existe quando seu objeto está ausente. Se os pais ofertam aos filhos algo que eles não desejaram, ou para cuja autoconquista não se empenharam  nem se esforçaram, tiram dos filhos a chance de se valorizar e, também, de valorizar o que recebem, fazendo-os passar a considerar importante só o ato de “receber, ganhar”. Sem autoconquistas, não “treinam” para competências, desenvolvem falsa felicidade e dependências, e comprometem sua vida e seus projetos futuros; tornam-se adolescentes e adultos felizes só quando servidos, não incorporam valores autênticos, não existem, não são, não se incluem e não pertencem. A autoestimulação precoce e continuada evita tudo isso, e participa como elemento importantíssimo na formação da personalidade dos filhos.

O “dar” excessivo (mimar) não é bom para ninguém, nem mesmo para os pais que tiveram a vivência daquilo que pretendem ensinar aos filhos. Concordo com Tania Zagury quando enfatiza a necessidade do empenho dos filhos às autoconquistas: “Dar de tudo pode também se revestir de outras formas: concordar (e promover) com programas múltiplos e simultâneos fará com que a criança sofra uma verdadeira tortura [...] escolhas sempre envolvem algum tipo de perda e conflito” (2003. pp. 87, 88 e 89).

KLAJNER, Henrique. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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