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Pais, filhos e televisão. Como proceder?

Pais, filhos e televisão. Como proceder?

[…] as coisas hoje são bem mais difíceis pela proposta de não autoritarismo da nova geração de pais […] mas o exercício da democracia e liberdade é muito mais complexo do que o do autoritarismo […] (Zagury, 2002, p. 111).

O autoritarismo não coexiste com a democracia. Embora métodos democráticos de educação sejam, atualmente, os mais preconizados, desejados e aplicados, muitos pais confessam que preferiam o “antigo autoritarismo”. Comentarei os dois métodos.

O autoritarismo, à primeira impressão, parece facilitar o processo educativo porque impõe valores e leis aos educandos e, com isso, os conduz à evolução máxima, mas a médio e longo prazos mostra-se muito superprotetor, porque, diante da obrigatoriedade de aceitar com passividade o que os educadores ensinam, leva à dependência, cumplicidade e felicidade a opiniões e decisões superiores, com mínima autoaquisição de autoestima e de fidelidade autêntica, pelo fato de o “subordinado” ter sempre que dividir os “lucros” com seus educadores, culminando em retração, em falta de iniciativa, de desprendimento e de criatividade, e em desesperança, inconformismo, revolta e distúrbios comportamentais.
Tanto a democracia muito liberal como o autoritarismo exagerado são extremos nefastos para a boa educação. O ideal é a conduta intermediária: não obrigar a “caminhar sobre uma linha rígida” nem num “campo aberto”, mas numa “avenida” com limites, ritmo e disciplina, sonhando, desejando, optando, planejando, agindo com iniciativas e esforços próprios, e acertando, errando, corrigindo, avançando e retrocedendo sempre com esforços próprios.

Já vimos que a democracia normal é um regime imperfeito e, apesar de não ser “ideal”, ainda é o melhor. Discordo de muitos educadores que acham a democracia o melhor regime para governar os lares. No dicionário, democracia significa “governo do povo, soberania popular, regime que se caracteriza pelo ato eleitoral, divisão dos poderes e controle da autoridade…”. É “o governo do povo, eleito pelo povo e para o povo”. No lar, os pais (ou substitutos) governam e os filhos são governados, mas a democracia não pode ser adotada para governá-lo, porque, em geral, pais não são eleitos pelos filhos. Como conferir direitos de opinião a um “povo” imaturo, os filhos? Por outro lado, como esperar um bom governo de pais inexperientes, despreparados para uma função completamente desconhecida, com elementos cujas propriedades e características nem sequer se lembram de quando eles mesmos ainda eram educandos?

A própria natureza ensina como deve ser o governo na dinâmica do lar. Sugiro entendê-la, imitá-la e adaptar-se a ela para a felicidade autêntica de todos, porque o lar, como microssistema do universo, deve conter toda a essência deste. Há semelhança entre o lar e a natureza no que se refere à criação e ao funcionamento. A natureza não nos concede o poder ou o direito de interferir em suas leis, o Poder Supremo (Deus) construiu o universo com leis bem definidas, com planetas e habitantes imaturos por evoluir, autoconquistando ao máximo por meio de ações fundamentadas no conhecimento dessas leis, inclusive, uma dessas ações é poder exercer a democracia na política social. Ele, que é todo Poder, Sabedoria, Perfeição, dirige o universo com poderes absolutos, como um ditador, enquanto o povo tem duas alternativas: aderir de modo incondicional, ou se opor e sofrer todas as consequências.

A democracia não se presta para a educação dos filhos, pelo menos até que estejam física, mental e espiritualmente maduros, aptos para bem administrar os estresses. Então, com janelas de Piaget muito bem amadurecidas, podem exercer sua cidadania segundo os preceitos democráticos: respeito por si, pelo “outro” e pelas leis aprovadas pela maioria. Porém, até então, sugiro que os pais imitem Deus ao nos criar na Terra: utilizem o Seu modo de “governar” com Suas leis naturais; o estudo aliado à boa educação é o verdadeiro caminho para aplicá--las adaptadas ao governo do lar. Antes de constituir uma família, os pais precisam se conscientizar de que devem se instituir no cargo de “deuses” para governar seu “pequeno universo”. Os pais estão no lar como representantes de Deus, com “poderes” para imitá-l’O, procurando chegar à Sua perfeição. Veremos adiante que esta é a verdadeira imagem que os filhos têm dos pais, de deuses, e, do mesmo modo que a Ele nos dirigimos para pedir e agradecer, os filhos se dirigem, pedem e agradecem a seus pais no microcosmo do lar. Tudo isso pode parecer estranho à primeira vista, mas é uma verdade insofismável e dá plena sustentação à aplicação da autoestimulação precoce e continuada.

É claro que há diferenças entre os “deuses do lar” e o Deus supremo, mas há semelhanças que interessam a todos os educadores: uma encontra-se nos objetivos e funções de quem gera “mundos”, coloca “elementos” – que, até certo momento, não sabem por que ou para que “nasceram” – para viver, crescer, evoluir e se multiplicar. A criança nasce impregnada da noção da existência de um Poder Supremo do Universo, com religiosidade, e o projeta nos pais, seus primeiros deuses. Segundo as neurociências, ela traz no cérebro subcortical todas as representações maternas repassadas durante a vida intrauterina. Eu creio que ela sente o Poder Supremo como uma enorme força provinda de sua mãe; por isso, ela seria sua “deusa” naquela fase de total dependência para sua segurança, sobrevivência e felicidade. A figura paterna entra associada à da mãe pelas representações repassadas e incorporadas como o “outro deus” que participará de sua vida futura. Enquanto isso, no útero, o feto é submetido aos rigores das leis da natureza, sem “opinar”, sem “votar”, sem ter opções, sem “democracia”. Ele, “povo”, recebe diretrizes da natureza por intermédio da mãe, sua “deusa”, e, para sobreviver, adere incondicionalmente a elas.

Não há como instituir a democracia para “governar” filhos até a adolescência, porque todos nascem com a “lembrança” da vida intrauterina, com o Poder Supremo do Universo projetado em seus pais como deuses, e para dar sequência à “excelente educação intrauterina” que receberam, proponho que as leis do lar sejam instituídas pelos “deuses em exercício” e, por serem inexperientes, que estes sejam orientados por profissionais, cumprindo-as e fazendo-as ser cumpridas num regime absolutista. A autoestimulação precoce e continuada preconiza oferecer uma “avenida” para seguir, com liberdade dentro dos limites, ritmo e disciplina estabelecidos pelas leis, de modo semelhante à vida intrauterina. Os filhos, tendo superado tão somente com os próprios esforços todas as “dificuldades” pré-natais, nascem ávidos para continuar evoluindo, sabedores de que deverão continuar a superar barreiras e limites de modo semelhante, e a função dos pais é educar: ensinar, aplicar e cobrar ritmos, disciplina e limites em sua liberdade depois que adquirem locomoção, utilizando os poderes legislativo, executivo e judiciário. As dificuldades dos pais desaparecem quando os filhos seguem orientados pela autoestimulação precoce e continuada. Como Tania Zagury diz: “o antigo autoritarismo extremado facilita a tarefa de governar, mas cerceia iniciativas, autoconquistas, autoestima, independência, felicidade verdadeira e competência” (Zagury, 2002, p. 111). Todavia, a “democracia” exagera na permissividade e se transforma em anarquia. A solução é o meio-termo: um autoritarismo racional.

As leis educativas precisam ser transmitidas de forma adequada pelos pais e educadores, por mensagens com linguagens adaptadas a cada idade e grau de maturação do educando – o comportamento dos filhos expõe as leis do seu lar. Um grande problema é pais e familiares utilizarem sempre a linguagem verbalizada para todos, em todas as fases, esquecendo que ela só é praticada pelas crianças depois dos dois anos e meio. Até então, “discursos educativos” não são eficazes; as leis (ritmo, disciplina e limites) devem ser transmitidas em “linguagens” adequadas, como já explicitadas; olhar, mímica e gestos acompanhados de palavras correspondentes: rostos alegres e efusivos com o “sim” (permissão e concordância), e fisionomia brava e desaprovadora com o “não” (discordância e desaprovação).

Os “discursos” verbais não compreendidos são recebidos como excesso de atenção pelos educandos, principalmente se enunciados com delicadeza. Se for para impor um “não”, a delicadeza não surtirá efeito, porque ele será interpretado como um “sim”, exatamente o contrário da intenção do educador. Discursos seguidos fazem os educandos repetirem os procedimentos indesejados, por lhes darem a sensação de que estão agradando, e termina por formar um círculo vicioso e cansativo. Portanto, até os dois anos e meio de idade, só discursar é mimar.

Na verdade, a educação verbalizada exclusiva, apesar de as palavras poderem ser compreendidas aos dois anos e meio, só funciona na verdade depois dos cinco anos de idade, quando o raciocínio lógico pleno faz a criança, incluída nos modelos e conhecendo suas leis e funcionamentos, compreender também o conteúdo das mensagens embutido nas palavras, dialogar, argumentar e contra--argumentar, porque alcança o significado pleno das mensagens, tornando o processo educativo mais fácil. Contudo, o olhar, o toque, os gestos e as mímicas devem continuar para sempre.

Diante da imposição de leis, mesmo as que dão prazer, a criança sempre apresentará desafio e oposição para superá-las, sempre se negará a aceitá-las sem atentar a vantagens ou “prejuízos”, porque a verdadeira autoconquista e felicidade estão na simples superação de qualquer lei. Aliás, oposição e desafio a obstáculos são normais em todas as idades. É uma primeira atitude sempre usada por qualquer pessoa para autoconquistar superando algum obstáculo e evoluir, mas considerados, por pais e educadores equivocados, maneiras de os filhos “testá-los” e irritá-los, porque eles se opõem e os desafiam mesmo quando sua determinação visa a algo bom, prazeroso e útil para eles mesmos, como passear, ir a compras, a parques, ou quando concordam e permitem alguma conduta que eles mesmos tenham pedido, isto é, passíveis de superação e, de repente, contrariam, negando o que antes pediram. A conduta dos filhos é sempre ser contra tudo. Mas a grande dificuldade dos pais e educadores em geral reside na aplicação dos “nãos” por não quererem magoar ou frustrar os filhos, esquecendo que a frustração é um sentimento mais importante, que dispara o gatilho para a autoaquisição da administração adequada dos estresses, e o educando nunca se magoa ao aprender as leis e os caminhos adequados para a autoaquisição da felicidade autêntica. Sugiro aplicar o “não” veemente, firme, incisivo e persistente, transmitido por mensagens adequadas à idade, até que a criança desista da oposição, se frustre e chore, porque o choro é o sinal de que aprendeu, incorporou e aderiu à lei, isto é, sinal de que não encontrou maneiras de continuar tentando a superação.
Acho importante condicionar a criança a aderir às leis de imediato, como um “controle remoto”, porque são frequentíssimos os acidentes sérios quando a adesão é retardada, como, por exemplo, pegar um objeto contundente, cair numa piscina, ou de uma janela, ou de um barranco, quando frações de segundo são vitais. E mais, os pais precisam habituar-se a antecipar suas condutas para impor limites para essa prevenção. É o caso, por exemplo, de um pente no chão que um bebê quer pegar, não se deve permitir, porque ele poderá, depois, apanhar uma faca, confundindo-a com o pente.

A criança, até atingir o raciocínio lógico, necessita de três ensinamentos para cada aprendizado – porque ela se opõe e desafia a cada ensinamento –, com o “não” sendo enunciado cada vez mais forte e incisivo, até que ela concorde ou chore. Deve-se permitir que a criança vivencie as frustrações sem nenhuma ajuda, consolo, compensação, discursos ou atenção, para que ela possa, por si mesma, achar a saída. Na ânsia de sair, é comum apresentar atitudes agressivas, sobretudo se tiver sido mimada. Ao contrário da oposição e do desafio, a agressão não pode ser tolerada nem ignorada, mas deve, sim, ser punida. São duas as dificuldades de pais e educadores em lidar com agressões dos filhos: saber quando considerar uma conduta agressiva e como punir. A conduta é agressiva quando ultrapassa a tolerância (que sempre deve ser mínima) de cada educador e das leis ambientais; a punição varia conforme a agressão, e deve participar independente da educação e da melhor personalidade dos filhos, porque imita a natureza, faz parte das suas “mensagens”. A autoestimulação precoce e continuada faz isso com maestria.

A punição é um “castigo que educa”, e é mais eficaz quando o educando “recebe de volta” a agressão que cometeu. Mas “devolver na mesma moeda” reforça o ato que se quer reprimir, e serve de exemplo agressivo do educador a ser imitado pelo educando. Essa conduta educativa falha já na origem, a não ser quando há resmungos, cara feia, gritos, gestos que demonstram irritação, para que o educando sinta o desprazer causado por suas atitudes. Em geral, a punição deve ser a perda mais longa possível ou irrevogável de algo que o educando valorize muito e, de preferência, que tenha autoconquistado, para que sinta um “luto cruel”. O time out (ficar no canto ou no quarto para repensar seu erro), ou seja, ficar algum tempo sem um brinquedo, ou TV, ou computador, são “suportados” com facilidade, e a agressividade volta pior, porque agora ele se sente “vitorioso”, até mesmo por ter desgastado a autoridade dos pais e educadores. Nunca ignore ou tolere as agressões dos filhos, por mínimas que sejam, porque, depois de três experiências não punidas, a agressividade se incorpora ao seu comportamento como uma verdadeira autoconquista, com autoestima e felicidade, e fatalmente o educando chegará aos distúrbios comportamentais da adolescência, e também da adultícia, “aperfeiçoados” como todas as autoconquistas. Depois de três experiências educativas com imposição de leis e punições, qualquer educando aprende a superar, ou não, barreiras e limites apenas se opondo e desafiando, mas sem agredir, e a aderir às leis de todos os ambientes com autoconquista, autoestima e felicidade autêntica, porque se vê superando até seus próprios limites, sendo aceito e incluído no meio.

Voltando aos problemas com a TV, as dificuldades dos pais começam na seleção de programas (para isso eles devem contar com a ajuda do pediatra), mas, quando definida, ela precisa ser incluída nas leis, apresentada aos filhos em linguagens adequadas, e fazendo-a valer, tolerando oposições e desafios e punindo as agressões. Os conflitos relacionados a esse tema são sempre devidos à falta de leis bem definidas e à impunidade das agressões. Discordo de Tania Zagury quando diz: “[…] É uma guerra em que entramos com pouca chance de ganhar […] proibir a criança de assistir à TV não vai solucionar coisa alguma […] não é escondendo o mundo dos nossos filhos que iremos prepará-los para enfrentá-lo […]” (Zagury, 2003, p. 114). Precisamos, sim, estabelecer o que eles podem assistir, não capitular, aceitando a incompetência de terceirizar a responsabilidade pelos programas ao governo ou a outro alguém. Do início ao fim, a função de educar os filhos é exclusiva e integralmente dos pais, e o controle com censura precisa ser, por inteiro, regido pelas leis ambientais. Como vimos, conflitos entre gerações são normais, além do que, a triagem dos programas permite que sejam gradualmente liberados à medida que amadurecem.
Em outro trecho, Tânia Zagury concorda:

A televisão não é obrigatoriamente um mal. Dependendo da nossa atuação, podemos torná-la até uma aliada na educação dos nossos filhos […]. Censurando, limitando, substituindo por outras atividades, de preferência com a família […] assistir programas com os filhos para que desenvolvam honestidade, honradez, justiça, amizade, lealdade, generosidade […] (2003, p. 120).

A autoestimulação precoce e continuada é o melhor caminho.

KLAJNER, Henrique. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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