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Pais separados não são sinônimo de filhos-problema

Pais separados não são sinônimo de filhos-problema

[…] Filhos de pais que vivem brigando podem ansiar por uma vida diferente para si, cedo casar e viver muito felizes. Outros podem tomar o modelo e continuá-lo em sua própria vida. Quer dizer que nunca saberemos qual será o futuro de nossos filhos. A única coisa que podemos fazer, portanto, é dar o melhor de nós mesmos para que, no futuro, se algo correr de forma diversa da que objetivávamos, possamos nos dizer: “Bem, fiz o melhor que pude, dei o melhor de mim” (Idem, p. 144 – grifos nossos).

Não concordo. Não basta dar o que “julgamos” ser o melhor de nós para educá-los bem, mas sim o que os filhos precisam individualmente em cada momento. É preciso saber de suas necessidades e preferências, se as ofertas são oportunas, compatíveis com as reais necessidades, se obedecem às leis, se têm impedimentos ético-morais, econômicos ou punitivos.

Também não é aconselhável tranquilizar-se com o “…bem, fiz o melhor que pude, dei o melhor de mim”. Sabemos que o futuro “só a Deus pertence”, mas temos a obrigação de nos preparar, e a nossos filhos, para que se tornem “coringas” aptos para qualquer empreitada. Tais palavras da autora permitem que os pais se autoabsolvam, com um alívio, mas que dura pouco tempo, porque elas nunca consolam diante dos consequentes “estragos”, restando só as possíveis correções pela mudança radical dos estímulos ambientais tão difíceis, que fazem os pais desistirem. O futuro e a genética dos filhos são desconhecidos, mas temos a obrigação de, prevenindo, conduzi-los à sua expressão máxima, e tudo depende da boa educação.

A autoestimulação precoce e continuada possibilita transmitir todos os valores familiares autênticos aos filhos, para, adultos e felizes, poderem rumar optando por manter os modelos do lar e dos ambientes frequentados ou descortinar outros novos – qualquer das opções lhes franqueará a felicidade autêntica, sempre validando os primeiros valores recebidos.

Tudo isso vale sempre, e, mais ainda, numa eventual separação dos pais. Tania Zagury afirma:

É importante que os pais que se separam não se sintam culpados frente aos filhos por essa derrota ou fracasso para não compensar os filhos, deixando-os fazer tudo que desejam e “agravar” um trauma que consideram ter causado […] devem explicar-lhes com realismo e objetividade que a vida dos dois (pai e mãe) não deu certo, que cada um vai tentar refazê-la, mas que ambos continuam a ser o pai e a mãe que sempre os amaram e protegeram – e, principalmente, que isso não vai mudar (Idem, p. 146).

A separação de casais já não é tida como desastre ou derrota, apesar de muitos se sentirem culpados por não manter a união que convidou filhos a participar da imensa e eterna felicidade que pretendiam. É impossível evitar esses sentimentos que causam estresses e que são a origem de alterações comportamentais em todos, no lar e em outros modelos, tais como brigas e disputas agressivas, atitudes extremadas como excessiva superproteção ou indiferença ou intolerância com maus-tratos, punições descabidas dos filhos, mas que podem muito bem ser evitáveis por sua boa administração, por meio de personalidades bem formadas pela autoestimulação precoce e continuada.

Sou partidário da união permanente do casal, mas a separação não é um “desastre”, porque há prejuízos enormes para os filhos, comprovados pela ciência, numa união mantida a qualquer custo. Uma boa separação causa problemas menos graves do que uma união forçada. Muitas vezes, a paz e o entendimento dos pais só vêm depois da separação.

Oswaldo Di Loreto afirma que a separação do casal não é a única origem, nem a essencial, para que apareçam distúrbios comportamentais nos filhos, e a gravidade desses distúrbios nem sempre é diretamente proporcional ao tamanho e à gravidade dos problemas familiares. Os pequenos problemas do dia a dia, ou como ele os chama, “dramas suburbanos”, podem ser os vilões.

[…] Nos casos que atendia, o que mais impressionava era a falta de um caráter psicológico. Tudo tinha cheiro de vida comum, de pequenas mazelas do cotiano […] “dramas suburbanos” […] onde há uma criança com distúrbios psíquicos, há um drama familiar com características bem suburbanas (2004, pp. 66 e 68).

A repercussão de uma separação e o consequente comportamento dos filhos depende da dinâmica do lar como um todo, desde o princípio, e tem mais a ver com o relacionamento entre pais e filhos antes da deterioração da relação dos pais do que com os procedimentos deles com os filhos na iminência da separação. Nem sempre a gravidade dos dramas e conflitos familiares tem relação direta com os sinais e sintomas apresentados pelas crianças: “Como as crianças estão com a mente em construção, nada é estabilizado […] Por isso, os seus sintomas são fracos sinalizadores do estado da mente. Na infância, sintomas singelos podem expressar mentes bem alteradas. E vice-versa […]” (Di Loreto, 2004, p. 92).

E mais. A causa dos distúrbios comportamentais dos filhos não está no conteúdo ou na forma dos conflitos domésticos, mas “[…] na exposição delas nos conflitos familiares […], nos conflitos humanos instalados e repetidos, e repetidos e repetidos, automaticamente, nas relações familiares anteriores […] estas, sim, podem ser patogênicas” (Idem, pp. 119 e 127).

Sempre preconizei o bom relacionamento entre os pais como condição sine qua non para a saúde mental dos filhos. Oswaldo Di Loreto diz que a mente das crianças se constrói “a partir de matéria-prima vinda do movimento contido no vínculo mãe-pai” (Idem, p. 164), o que é confirmado hoje pelas neurociências, para os filhos enxergarem-nos como “deuses em uníssono”. Conflitos entre os pais são estímulos que os levam a comportamentos alterados, mesmo que com sinais e sintomas leves. É necessário esclarecer isso aos pais antes que tenham filhos.

O autor conclui que a verdadeira origem dos distúrbios comportamentais dos filhos depois da separação dos pais está no mútuo denegrimento dos pais entre si, com filhos presentes ou ausentes: “[…] Os filhos constroem sua mente com matéria-prima vinda do movimento contido no vínculo Mãe-pai que antecede aos filhos […]” (Di Loreto, 2004, p. 169), isto é, que se iniciou quando se conheceram, e os problemas no relacionamento do casal vivenciados pelos filhos podem ter origem numa época anterior ao nascimento deles. Ele diz: “[…] Para ser patogênico, não é necessário que uma ação se faça diretamente sobre o filho […] A patogênese do vínculo distante é mais frequente que a ação patogênica direta sobre o filho […]” (Idem).

O vínculo pai-mãe se modifica com o tempo, mas a origem dos distúrbios dos filhos pode estar numa época anterior ao seu nascimento. Oswaldo Di Loreto diz:

Há o papel do vínculo inicial, fundador, dado pela relação homem-mulher. Sobre este, se junta o de marido-esposa que, mais tarde, será acrescido dos papéis de pai-mãe. O acoplamento de vários papéis, que são jogados na mesma unidade social (família), permite a transposição de conflitos de um papel para outro […] Os conflitos que aparentemente vinham dos papéis de mãe-pai eram transposições dos conflitos originados nos papéis de homem-mulher. Aqui está a patogênese (Idem, p. 170).

O autor ainda afirma que: “Além das Relações Diretas, ou seja, das relações bipessoais entre sujeitos e objetos, estão presentes as imagens de cada um, refletidas pelos outros, as ‘Vias Reflexas’” (Idem, p. 178). A relação de cada um dos pais com cada um dos filhos reflete-se sobre todos, influenciando o comportamento individual de todos; cada filho sofre a influência das relações diretas entre os pais e deles com todos os irmãos (influências por Vias Reflexas):

[…] Há o engano que diz a tão repetida balela de “o mesmo pai, a mesma mãe, a mesma casa exercendo influências iguais sobre todos os filhos” […] As ligações familiares são concomitantes, mas exclusivas e particulares para cada filho […] A resultante é um complexo imbricamento de triângulos inter-relacionados, mas cada um com vida própria. Cada filho sofrerá, portanto, sua própria patogenia – quando as relações forem patogênicas – que poderá ser assemelhada ou diametralmente contrária à dos outros (Idem, p. 179).

Embora as influências se deem de modo igual para todos os familiares, cada um deles terá, no final, seu distúrbio particular, talvez relacionado à sua constituição genética individual. Então, Di Loreto conclui: “Os pais que se atacam e se denigrem não só fazem mal a si mesmos, mas aos filhos […] o ódio ao outro pode ser maior que o amor ao filho e, contido nas Vias Reflexas, danifica a mente dos filhos” (Idem, p. 180).

Embora o amor seja a origem principal da união de um casal, ele pode ser confundido com atração sexual, que, por si, é insuficiente para uma união estável e para a constituição de uma família com filhos, e pode, ainda, ser confundido com sentimentos como “pena”, ajuda ou retribuição. Mas, para uma união conjugal feliz e estável, o amor deve ser algo mais evoluído. Para mim, o casal se separa não porque o “amor acabou”; o verdadeiro amor conjugal nunca termina; ele pode ser eclipsado em momentos quando o receber significa mais do que dar, provocando estresses intensos, com afastamentos, repúdio e impressões de ódio, incertezas, insegurança, distúrbios comportamentais dos filhos, conflitos e agressões. Mas, se for autêntico, o amor não desaparece, e sempre pode ser resgatado.

Concluo que os distúrbios comportamentais dos filhos, com ou sem separação dos pais, resulta do somatório dos seguintes fatores, em ordem decrescente de importância: denegrimento mútuo do casal (com filhos presentes ou não); falta de amor autêntico; conflitos agressivos, verbais ou físicos; mau relacionamento de cada cônjuge com algum ou todos os filhos (distúrbios por via direta ou reflexa).

Por que o casal se denigre? Todo ser humano se considera idealizador e realizador só do que é bom, e transfere a responsabilidade pelos insucessos a terceiros. O cônjuge separado necessita justificar, para si e para os filhos, porque a culpa é do outro cônjuge, enfatizando seus defeitos e sua falta de atributos (reais ou não) para educar os filhos. A soma desses dois motivos serve para tentar fazer o “outro” se corrigir, como condição para voltarem à harmonia. Mas esses denegrimento só piora o relacionamento, porque ambos se sentem agredidos, injustiçados, e reagem vingando-se da mesma maneira. Os filhos são “plateia cativa” desse “espetáculo” desagradável e indesejado, sofrem “aliciamentos” por ambos para serem seus cúmplices solidários, mesmo quando os cônjuges separados entendem que precisam manter os filhos neutros e equidistantes de ambos, amando-os igualmente na paz.

Oswaldo Di Loreto explica por que o denegrimento mútuo do casal não deve ser praticado:

[…] a tendência das devastações reflexas é serem irreparáveis […] as relações são invadidas por desprezo crônico e/ou por rivalidades perpetuadas […] as respostas que pais dão aos filhos não respondem ao filho, respondem ao outro pai, o que está em sua mente. “Sins” ou “nãos” são ditos à criança apenas para desautorizar o outro. São respostas que não levam em consideração o filho nem seus interesses, contêm elementos patogênicos maiores do que a simples incoerência, contêm um elemento de despersonalização do filho e a sua despersonalização é patogênese pesada, pois, se confirmado (incluído e aceito no seu modelo) é a primeira condição para construir sua personalidade […] (2004, pp. 182 e 183).

Eu concordo. O ideal é os pais, juntos ou separados, partilharem opiniões e atitudes coerentes e respeito pelo que o outro pensa, sem disputa de posições, essenciais e imprescindíveis para a formação da personalidade dos filhos, e sem se denegrir. Como Di Loreto afirma: “Cada pai pode lutar para o filho ser o seu ideal de filho; aí não há patogênese; o patogênico é usar as diferenças como arma que começa quando elas passam a ser veículos para desprezos, desencantos e ‘vidas secas’” (Idem, p.183). O denegrimento vem da incompreensão que impede o casal de enxergar o mal que fazem aos filhos. Segundo o mesmo autor: “A hemianopsia [cegueira parcial] trazida pelo desprezo e pelo ódio impede de ver o evidente: a esposa (ou marido) destruindo o marido (ou a esposa) destrói o pai (ou mãe) do filho” (Idem, p. 184). É um estresse difícil para os filhos administrarem em qualquer idade, porque sentem suas raízes serem destruídas e, sem raízes, não podem subsistir.

O autor continua: “Por que valorizar tanto as Vias Reflexas? Afinal, as Vias Diretas não são igualmente ou até mais patogênicas? […] Porque, nos terráqueos, há um impulso primário à preservação da identidade e, para isso, é necessário preservar as origens […]” (Idem, p. 202). No denegrimento do casal, as próprias origens estão se autodestruindo na presença dos mais interessados em sua manutenção eterna, os filhos. A harmonia do lar, que depende do bom relacionamento dos pais (juntos ou separados) entre si e de ambos com os filhos, evita a incursão dos filhos nos distúrbios comportamentais. O autor várias vezes citado confirma: “As patologias resultantes do fogo cruzado têm tendência inequívoca a apresentar caráter ‘antissocial’ e ‘delinquencial’” (Idem, p. 186).

Muitos casais se separam fisicamente, mas não “de verdade”, e continuam interessados em saber um do outro por informações dos filhos, mesmo sem confirmação, para manterem o denegrimento. Com outros pode acontecer o contrário:

Há casais que, numa separação, têm dificuldade para aceitar a perda do corpo […] há um número não desprezível de crianças concebidas após a separação dos pais. São casais que fazem um vínculo impossível: “não conseguimos viver juntos; não aguentamos viver separados”, casais esses que constituem um grupo de patogenias pesadas (Idem, p. 208).

Muito feliz, confirmo a habilidade que a autoestimulação precoce e continuada entrega aos filhos para lidar com situações conflitivas dos pais, separados ou não, administrar os consequentes estresses e sair facilmente das frustrações com coping e resiliência (jogo de cintura) em todas as fases. Explico o significado desses dois termos:

• Coping é a capacidade de a criança agredida ou adversamente afetada se recuperar e viver uma vida normal e, quando confrontada por múltiplos riscos, administrar-se para evitar comportamentos negativos.

• Resiliência é a participação positiva das diferenças individuais nas respostas das pessoas ao estresse e às adversidades.

A separação dos pais, embora indesejada, pode ser a opção ideal para o casal repensar a relação, seus sentimentos, e encontrar soluções, sem se prejudicar nem aos filhos. Nem toda separação conjugal tem maus resultados; algumas melhoram a vida de todos, ou nem são definitivas, se o casal for consciente dos benefícios e prejuízos. Di Loreto nos ajuda: “O que é menos danoso para os filhos: a separação de pais que se odeiam e se desprezam (e consequente perda da unidade familiar) ou a preservação do núcleo familiar, mesmo em meio a ataques e destruições?” (Idem, p. 209).

Para manter a harmonia do lar, concordo com a “teoria” dos triângulos de Di Loreto:

É importante e imprescindível que a boa construção da mente (dos filhos) seja formada dentro de um triângulo (filho, mãe e pai). A configuração triangular é a configuração de acordo com a natureza. Os ganhos do triângulo são visíveis: diminui o risco de o filho ser xérox ou clone dos pais […] e ainda traz o enriquecimento que vem das Vias Reflexas (as Vias Reflexas aumentam tanto o potencial de enriquecimento como o de conflitos) (Idem, p. 209 – grifos nossos).

Apenas em um lar harmônico (com pais juntos ou não) as Vias Reflexas transmitem valores benéficos. O autor citado valoriza a atividade anímica, do pensamento, e eu concordo – nós autoconquistamos, de início, por fantasias e, depois, ao nível material.

Não há necessidade de presença física, concreta, de todos os três no triângulo, basta haver um triângulo virtual […] Por exemplo, mulheres que enviuvaram quando os filhos eram pequenos e que apreciavam o masculino e conservavam dentro de si um bom homem […] Apesar de esses filhos terem sido criados em contato próximo somente com uma mulher, a preservação interna do masculino (figura paterna) garantiu a boa identidade, sem qualquer figura substituta (Idem, p. 209).

Então, segundo o autor, o triângulo é sempre mantido nos casos de separação do casal. O “triângulo” de relações pais-filhos pode não funcionar adequadamente por vários motivos, quando sobrevém o relacionamento que Di Loreto chama de inutilização do triângulo. Um deles é relação em corredor:

Quando um dos pais não tem a capacidade de ter o outro na cabeça, toma posse do filho e alija o outro com eficiência resultando relações bilaterais e não triangulares […] Os pais se deixam alijar com maior facilidade do que as mães. Recolhem-se a um mutismo magoado e, depois, fogem. […] As relações “em corredor” têm potencial patogênico maior do que as triangulares […] Outro formato que pode tornar a “inutilização do triângulo” é o caso das relações mãe-pai simétricas e sintônicas (quando nunca discordam) […] faz contraposição com vínculos que “esfriam” o emissor (porque discórdias precisam ser abordadas!) […] Os vínculos simétricos são instáveis, tendem a implodir rápida e definitivamente, não ocorrem somente entre agressivos, algumas são tranquilas e vividas com agrado durando até longo tempo […] a uniformidade das fantasias faz com que, mesmo sendo duas pessoas, o casal funcione como uma só resultando a soma aritmética dos desejos de ambos […] É uma forma de patogênese “silenciosa” (não há conflitos) e pode cegar (Idem, p. 214 – grifos nossos).

Discódias e conflitos, quando bem resolvidos, colaboram para a autoconquista da felicidade autêntica também na vida conjugal do casal; eles demandam soluções e obrigam a optar a cada momento. Numa conferência, ouvi Sartre dizer: “a vida, a cada momento, nos apresenta um “Y” diante do qual precisamos optar por uma de duas alternativas”. Tranquilidade e ausência de conflitos paralisam a evolução.

A separação dos pais pode ser, para muitos filhos, a melhor solução; tudo depende de como tiver sido a dinâmica familiar anterior e como a separação é administrada. A educação dos filhos deve ser, com ou sem separação, sempre calcada na transmissão dos valores familiares autênticos, com respeito às leis ambientais e a seus parâmetros: ritmo, disciplina e limites. Os pais nunca devem transgredi-las ou se denegrirem mutuamente, para que o triângulo de relações pais-filhos, material ou virtual, não seja sacrificado, criando graves problemas inevitáveis e, talvez, insolúveis.

KLAJNER, HENRIQUE. A autoestimulação e seus reflexos na educação. São Paulo: Marco Zero, 2011.

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