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O problema não é ter um bom desempenho, mas ser um bom pai

O problema não é ter um bom desempenho, mas ser um bom pai

O modo como o pai e a mãe criam os filhos tem enorme importância sobre o desenvolvimento e sobre o tipo de pessoa que eles vão ser. Mas há um preconceito universal de que só há um modo certo de fazer qualquer coisa. Para quem acredita nisso, se a pessoa faz o que é certo alcançará sempre o objetivo, e o processo é relativamente simples.

Não é verdade. E o resultado é que, quando as coisas se tornam difíceis ou complicadas, quando a criança não reage do modo esperado, os pais tendem a
acreditar que eles erraram em alguma coisa, não educaram bem, que a abordagem não foi correta. Em momentos de desespero, por exemplo, e de incompreensão, mães e pais reagem perguntando “o que é que eu fiz de errado?”.

Por isso mesmo, muitos pais procuram apoio em livros e manuais que pretendem ensinar como educar por meio de receitas que seriam aplicáveis a todas as crianças em qualquer circunstância.

O sucesso que eles obtêm seguindo instruções para montar ou fazer funcionar objetos, leva-os a crer que a educação de uma criança é um problema de desempenho e de seguir normas e regras.

Esses pais estabelecem, inconscientemente e, com frequência, subconscientemente, uma analogia entre suas relações com os filhos e a operação de uma máquina. A observação é de Bruno Bettelheim, para quem o verdadeiro problema não é o desempenhar-se bem e, sim, ser um bom pai. Para isso, é preciso que eles se livrem da ideia de que existem métodos infalíveis que, quando bem aplicados, produzirão resultados previsíveis. “O que quer que façamos por nossos filhos deve fluir da compreensão que temos deles e da nossa percepção da situação específica e da relação que queremos que exista entre nossos filhos e nós”, escreve Bettelheim.

Por outro lado, precisamos entender que a maior parte dos conselhos sobre educação dos filhos é procurada na esperança de que confirmarão nossas convicções iniciais. É difícil ler conselhos sobre como se comportar como pai ou mãe sem ter reações pessoais fortes e até leituras diferentes. Essas reações e leituras acabam interferindo na compreensão e na objetividade necessárias para evitar projeções pessoais que criam elementos que não estão ali.

“É difícil sentirmo-nos realmente bem conosco mesmos e nosso filho, quando utilizamos em nossas interações conselhos de alguém de fora, regras escritas em lugar da compreensão. Isso priva a interação da espontaneidade que gera experiências significativas do ponto de vista humano e, consequentemente, verdadeiramente satisfatórias”.
Bruno Bettelheim
Livros, com frequência, dizem aos pais como ser em relação ao filho, ensinam a ser compreensivo, paciente e, acima de tudo, amoroso. Mas se esquecem das crises e de que é praticamente impossível sustentar tantas atitudes positivas em situações de conflito, quando nossas emoções nos sacodem fortemente até perdermos a paciência com o que aquela criança está fazendo ou decidida a não fazer. Se nós damos  tanta compreensão, tratamos com tanta paciência, mostramos tanto amor, como é que essa criança pode retribuir fazendo manha, gritando, esperneando? Ela precisa de um limite, mais do que isso, precisa entender claramente quem é que manda aqui, quem é o mais forte, quem tem o poder.

Seguindo pelo livro e frustrados, ficamos momentaneamente impossibilitados de amar aquele filho obstinado, que fere gravemente nossos sentimentos sem motivo justo. Não podemos deixar que essa criança destrua alguma coisa que é tão importante para nós, ela não pode continuar com essa agressividade, com esse comportamento. Às vezes, ainda é possível encarar uma situação com bom humor e paciência, mas os filhos também precisam saber quem é que manda, não é?

A grande maioria dos pais ama seus filhos a maior parte do tempo e gostaria,
acima de tudo, de poder amá-los o tempo todo, porque é ótimo amar um filho sem reservas. Mas há poucos amores livres da ambivalência. O amor, às vezes, é atingido pelo cansaço, pela irritação, pela frustração, pelo desânimo, pelo desapontamento. E isso, sim, é o normal.

Os livros não foram feitos para crianças normais no sentido de crianças que seguem a norma, a normalidade. Os livros criam crianças ideais, que não existem a não ser nesses livros de como criá-las. E, a cada crise, os pais sentem-se pior, mais desafiados, mais impotentes, reagindo cada vez mais negativamente.
Luís Lobo

Nossos filhos também gostariam de amar-nos sempre, completamente, sem restrições, mas isso é impossível quando proibimos alguma coisa que eles querem muito e que não entendem por que estamos proibindo. Crianças são capazes de odiar nesses momentos, de imaginar até a morte da mãe ou do pai
para conquistarem o que desejam tanto naquele momento. Esse ódio faz mal à criança, mas é impossível deixar de odiar, por um momento, principalmente quando a criança é pequena e ainda vive segundo o princípio do prazer.

Nós, adultos, já não vivemos mais pelo princípio do prazer. Mesmo assim, por momentos, perdemos a paciência. Não chegamos a desejar a morte, mas, às vezes, somos capazes de agredir a criança por palavras, gestos, atitudes e até fisicamente.

Os pais que não vivem pelos livros são geralmente mais criativos nas situações de conflito, mais capazes de acreditar que a crise é inevitável e até necessária para o crescimento do filho. É difícil para eles, também, enfrentar a situação, mas esses pais que não correm atrás de desempenho mas cuidam de ser pais, compreendem melhor que os filhos querem desenvolver ideias próprias, valores pessoais, uma personalidade.


Não é fácil, no momento crítico, ter essa visão correta. E ela ajuda muito pouco quando os pais sentem que não só os seus valores, mas também seu modo de viver são questionados e ameaçados pelos filhos, em torno dos quais construíram grande parte de suas vidas.

E o que mais ajuda nos momentos de crise é tentar lembrar como era quando éramos crianças e queríamos muito alguma coisa, ou queríamos fazer o que não nos deixavam, ou quando resistíamos a uma restrição que não podíamos entender. Como é que nós nos comportávamos, qual era a nossa reação, como é que nossos pais revidavam e o que sentíamos contra eles? Quando somos capazes de recordar os nossos próprios distúrbios emocionais em situações semelhantes, é muito mais fácil superar a crise. As lembranças da nossa infância nos fazem sofrer nosso filho (como nós sofremos antes), é mais fácil vencer o momento. Quando nos reconhecemos nos filhos, é muito menos demorado e difícil retomar o amor momentaneamente interrompido.

Pais autoritários podem enfrentar crises e momentos de dificuldade, mantendo-se frios e exercendo o poder com mão forte. Mas se esse comportamento é artificial, sem emoção, mecânico e não como consequência de seus sentimentos mais profundos, ele parecerá menos humano ao filho. E, certamente, seu comportamento é menos humano. Isso amplia a distância entre pais e filhos.

Livros são feitos para serem lidos e, se possível, entendidos. E livros sobre a educação dos filhos não devem ser tomados como um manual de como fazer. Nada substitui a experiência, a convivência, o entendimento.
Luís Lobo

É exatamente porque amamos de verdade nossos filhos que somos tão vulneráveis. Quanto mais amamos um filho, mais nossos sentimentos podem ser feridos e mais nosso equilíbrio emocional pode ser abalado.
Como esse equilíbrio é fundamental na hora da crise para termos paciência
e sermos compreensivos, acabamos perdendo a compostura.

Com a criança ocorre o mesmo: quanto mais ela ama seu pai ou sua mãe, maior a frustração, maior o desequilíbrio emocional, maior a incompreensão, maior a sua reação.
Só que nós sabemos disso. Assim como sabemos que nos sentimos próximos de nossos filhos porque nos reconhecemos neles, tanto quanto eles se identificam conosco. O problema é que ficamos felizes quando reconhecemos em um filho um traço nosso que nos agrada, e ficamos infelizes ao reconhecermos nele uma característica nossa que consideramos um defeito.

As relações entre pais e filhos não se fazem só sobre as identificações positivas, mas também sobre as negativas. E isto não é fácil de aceitar, de parte a parte.

No momento em que admitimos que nossas emoções e nosso estado de espírito costumam ditar nossos atos e comandar a relação com os filhos, começamos a compreender melhor que eles também têm as suas emoções e os seus estados de espírito que podem levar à crise emocional.

Cada pai e cada filho é um indivíduo único, com histórias únicas e reações únicas para cada situação ou momento. E elas são tão variadas que não cabem nos livros. Nenhum conjunto de circunstâncias é exatamente igual ao outro, os momentos, os motivos e os estados de espírito são diferentes. O pai que insiste,
com firmeza, que nada a não ser a lógica deve determinar o comportamento da
criança na crise, certamente é capaz de vencer, de momento. Mas não vai convencer e ficará um personagem inatingível, distante.

Como escreveu Bettelheim, “a maior parte das tragédias familiares, grandes ou pequenas, poderia ser evitada se os pais pudessem livrar-se das noções preconcebidas sobre como eles ou os filhos devem ser ou devem agir”.

Reconhecer sentimentos e admitir que nos deixamos descontrolar, como aconteceu com a criança, é o primeiro passo para reconquistá-la, para superar a crise.

LOBO, Luís. Escola de pais: para que seu filho cresça feliz. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1997.

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